Anais do SIELP. Volume 2, Número 1. Uberlândia: EDUFU, 2012. ISSN 22378758 1 ENSINAR E APRENDER A ESCREVER NO SÉCULO XXI .- (RE)CONFIGURANDO UM VELHO OBJETO ESCOLAR José António BRANDÃO CARVALHO Universidade do Minho (Portugal) jabrandao@ie.uminho.pt Resumo No presente texto, procura-se perspetivar a escrita enquanto objeto escolar numa lógica de planos sucessivos e articulados: num primeiro plano, situamos a relação entre o sujeito (que aprende a escrever) e a escrita (o objeto da aprendizagem) no contexto da aula de língua; a relação da escrita com os outros domínios de uso da linguagem, também eles objetos de ensino-aprendizagem, constitui o segundo plano da nossa análise; o terceiro plano considerado enquadra a escrita no contexto das diferentes disciplinas escolares, relevando o seu papel nos processos de aquisição, elaboração e expressão do conhecimento; finalmente, num quarto plano, perspetiva-se a participação, pela escrita, no quadro mais alargado da escola enquanto comunidade e na(s) comunidade(s) em que a escola e os sujeitos se inserem. A análise desenvolvida pressupõe a mobilização de referenciais teóricos de natureza diversa, compatibilizando diferentes perspetivas, e não deixa de ter em conta a evolução a que a escrita tem estado sujeita, com impacto nos meios, nos processos, nos modos de construir sentido e nos produtos textuais deles resultantes; igualmente pertinentes nos parecem ser as transformações profundas da própria escola, enquanto contexto social e de aprendizagem, tendo em conta os sujeitos que a frequentam e os usos da linguagem com os quais estão familiarizados. Palavras-chave: escrita; ensino-aprendizagem; processos cognitivos; géneros textuais; novas tecnologias. Introdução Quando se discute o ensino do Português, levanta-se frequentemente a questão da expressão escrita. Tal acontece devido a um conjunto de fatores de ordem variada, um dos quais tem a ver com o facto de se tratar de um objeto complexo, que implica múltiplos aspetos. Para além disso, estamos perante um saber, de natureza processual, variedade da linguagem verbal, que, ao contrário da oralidade, se adquire na escola. Isto faz com que a qualidade da expressão escrita dos jovens que frequentam a escola e daqueles que terminam a sua escolaridade funcione, muitas vezes, como um indicador da eficácia da própria escola na consecução de um objetivo que a sociedade lhe atribui. Para tornar a questão mais complexa, assistimos hoje a uma grande transformação no uso da escrita como resultado do desenvolvimento tecnológico que tornou possível a emergência de novos contextos e de novos meios, dos quais resultam novas formas e novos géneros textuais. Tendo todos estes aspetos em consideração, propomo-nos, neste texto, refletir sobre o ensino da escrita na atualidade. Fá-lo-emos partindo duma caraterização do que é escrever, nas suas diferentes dimensões, após o que nos debruçaremos sobre o modo como a escola tem trabalhado a escrita. Na parte final, tentaremos definir um conjunto de linhas enquadradoras do ensino da escrita, perspetivando a questão numa lógica de planos sucessivos e articulados.