40 Rev. Neurociências 11(1): 40-45, 2003 ARTIGO O Paradigma do Prion Afonso Carlos Neves* RESUMO A proposição de ser o prion uma “proteína infectante” em substituição à hipótese do “vírus lento” – agente causal de certas doenças do sistema nervoso (doença espongiforme bovina, doença de Creutzfeldt-Jacob, entre outras) causou grande polêmica no meio científico, por contrariar dogmas centrais da biologia. Entre a hipótese do prion, formulada por Prusiner em 1982 e a outorga do prêmio Nobel a esse autor, em 1997, ocorreu a epidemia da doença espongiforme bovina no gado do Reino Unido e o aparecimento de uma nova variante da doença de Creutzfeldt-Jacob em humanos, com fortes indícios de haver ligação entre esses dois quadros. Assim, a hipótese do prion trouxe um novo paradigma científico, inicialmente ligado a doenças raras, que ganhou reforço com o aparecimento dessas epidemias. Neste trabalho, discute- se o transcorrer desses eventos à luz das considerações de Thomas Kuhn sobre as revoluções científicas. Unit ermos: Prion, paradigma científico, história da ciência, doença de Creutzfeldt-Jacob, encefalopatia espongiforme bovina. * Neurologista. Coordenador do Núcleo de Estudos do Conhecimento (Necon) da Disciplina de Neurologia da Unifesp – EPM. Introdução As epidemias costumam causar e acompanhar grandes transformações na história da humanidade. Assim foi com a doença espongiforme bovina (BSE – bovine spongiform encephalopathy) nas décadas de 1980 e 1990. Pode-se dizer que foi uma epidemia própria de seu tempo, associada a alterações ecológicas, econômicas, sociais, culturais e científicas. É notório que até mesmo seu agente etiológico, o prion, foi alvo de grande polêmica contemporânea em vários aspectos, incluindo o dogmatismo científico. As encefalopatias espongiformes, também cha- madas doenças do prion, são desordens neurode- generativas fatais que podem acometer animais, estando entre as mais conhecidas o scrapie no carneiro, a BSE no gado bovino, além de outros quadros em outras espécies. Em seres humanos, podem ser de natureza hereditária, infecciosa ou esporádica, e existem os grupos nosológicos: kuru, doença de Creutzfeldt-Jacob, síndrome de Gerstmann-Straussler- Scheinker e insônia familiar fatal 16,17 . A mudança de designação das encefalopatias espongiformes transmissíveis para “a etiologia molecular do prion” foi uma das maiores transformações na medicina nas últimas décadas do século XX 18 . A doença de Creutzfeldt-Jacob (CJD) despertou o interesse de Stanley Prusiner em 1972, quando, ainda médico residente, teve um paciente com esse quadro. Essa moléstia pouco comum, que atraía apenas o interesse de pesquisadores, causou grande comoção pública na década seguinte, diante de uma grande epidemia em rebanhos britânicos, ocasião em que Prusiner já havia feito uma hipótese científica revolucionária. Em 1982, Prusiner 1 nomeou uma proteína de maneira ímpar e própria, em virtude de considerá-la uma proteína infectante. Desse modo, o nome prion passou a significar mais do que apenas uma proteína descoberta pela ciência, passando a ter outros significados para a neurologia e para a medicina. Do período de 1982 a 1997, quando Prusiner ganhou o prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho com o prion , houve grande polêmica acerca da proposta desse novo agente e seu processo fisiopatológico. Embora reduzida, a polêmica ainda não cessou de todo 19 . Entre alguns fatores dessa discussão, havia o Dogma Central da Biologia, proposto sobre duas visões um pouco diferentes entre si, pelos descobridores do DNA, Watson e Crick 2 , acerca de um caminho linear da produção de proteínas, como a seqüência ácido-nucléico-ácido- nucléico-proteína, ou ainda, DNA-RNA-proteína. Na verdade, antes da hipótese do prion, a descoberta da transcriptase reversa em 1970 já apontava para uma