ARTIGOS / ARTICLES 123 TÁ SERTO! SÓ QUE NÃO... ARGUMENTAÇÃO, ENUNCIAÇÃO, INTERDISCURSO TÁ SERTO! SÓ QUE NÃO... ARGUMENTATION, ENUNCIATION, INTERDISCOURSE Mónica Zoppi-Fontana* Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil Sheila Elias de Oliveira** Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil Resumo: Neste artigo abordamos a relação entre discurso, enunciação e argumentação. Tomamos a argumentação como fato de linguagem com diferentes modos de inscrição na língua, na enunciação e no interdiscurso. Como tal, ela permite observar o funcio- namento do político na linguagem: as divisões das línguas e dos falantes em relação aos direitos ao dizer, aos modos de dizer e às posições ideológicas (interdiscursivas) que os determinam como base de constituição das relações argumentativas. Especifcamente, observamos o funcionamento da argumentação em um fato de enunciação: a delocutividade, que implica retomadas do dizer, produ- zindo novas formas linguísticas a partir da relação de enunciação. Analisamos duas interjeições delocutivas, Tá serto e Só que não. Ambas as formas encontram sua origem nas enunciações digitais no Brasil e sua materialidade está ligada intrinsecamente ao modo de produção e circulação da escrita no ambiente digital. Enquanto formas da língua, elas são afetadas pelos processos que participam da construção do léxico e de regularidades do sistema linguístico. A deriva das formas completas tá serto, só que não, para as formas abreviadas e seu uso como hashtags #serto, #sqn, são um traço do processo de estabilização destas formas na língua, por efeito da delocutividade enunciativa, que as incorpora às regularidades do sistema como indicadores de um modo de dizer irônico, aproximan- do-se no seu valor semântico-enunciativo a outros marcadores de modalização. Palavras-chave: Enunciação, Argumentação, Delocutividade, Modalização, Discurso digital. Abstract: In this article we discuss the relationship between discourse, enunciation and argumentation. We take argumentation as a language fact with different modes of inscription in the language system, as well as in enunciation and in interdiscourse. As such, it allows us to observe the functioning of the political element in language: the divisions in the language systems and between speakers for the rights to say, the ways of speaking and the ideological (interdiscursive) positions that determine the speakers, acting as the basis of argumentative relations. Specifcally, we observe the operation of argumentation in an enunciative fact: ‘delocutivity’, which implies the returns of saying, and produces new linguistic forms of enunciation. We analyzed two delocutive interjections: ‘tá Serto’ and ‘só que não’. * Doutora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas, SP, Brasil; monzoppi@gmail.com ** Doutora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas, SP, Brasil; sheilaeliasdeoliveira@gmail.com Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 29, n. 2, p. 123-155, dez. 2016 http://dx.doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v29i2p123-155