* Professor do Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia na Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL. E-mail: poesiatododia@hotmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3274-7032 Lembra-te de que vais morrer! Misérias da vida em comum em tempos de pandemia Remember that you will die! Miseries of common life in times of scourge Rodrigo Barros Gewehr * Resumo: Através de temas de atualidade que circularam em jornais e relatórios de organizações não-governamentais, este ensaio procura interrogar a epidemia de SARS-CoV-2 tendo como eixo norteador o que Artaud denomina, em seu texto O teatro e a peste, como desvios da moral e fracassos da psicologia em situações de flagelo. Que sentimentos uma situação de flagelo desperta no ser humano? E como esses sentimentos contagiam as narrativas que tentam se apropriar e interpretar o caos? Trata-se de pensar o momento atual sem se lançar em tentações de predição; um exercício de pensar a urgência despida de seu inerente apelo ao messianismo, buscando permanecer no patamar do flagelo. Temas como engenharia social, o caráter religioso assumido pelo discurso científico e a noção de desmedida servem-nos de elementos transversais de análise. Palavras-chave: Pandemia; Engenharia Social; Ciência; Religião; Desmedida Abstract: Based on different topics from newspapers and reports of non-governmental organisations, this essay aims at questioning the current SARS-CoV-2 epidemic guided by what Artaud calls, in his text The theatre and the Plague, as moral deviations and psychological failures in scourges conditions. What kind of feelings a scourging situation awakens in human beings? And how do these feelings contaminate the narratives that try to capture and interpret the chaos? It will be an exercise of thinking the current moment trying to avoid struggles of prediction; an exercise of thinking the urgency stripped of its inner appeal to messianism, seeking to remain at the bare level of the scourge. Themes such as social engineering, the religious character assumed by the scientific discourses and the notion of excessiveness are used as transversal elements of analysis. Keywords: Pandemic; Social Engineering; Science; Religion; Excessiveness Sob a ação do flagelo, os quadros da sociedade se liquefazem. A ordem desmorona. Ele presencia todos os desvios da moral, todos os fracassos da psicologia, escuta em si mesmo os murmúrios de seus humores, corroídos, em plena destruição, e que, num vertiginoso desperdício de matéria, ficam pesados e aos poucos metamorfoseiam-se em carvão 1 . Independente de causas ou mesmo das consequências, o que vivemos é um flagelo, no amplo sentido que esta palavra comporta: punição divina para os crentes no apocalipse; satisfação autoerótica do sofrimento infligido na carne do gozo proibido, ou na carne da dor desejada; ou ainda um latente desejo de morte que também se revela na temeridade de alguns gestos pessoais e de algumas ações de dirigentes políticos. Esta epidemia possui certamente uma realidade biológica, o que não exclui seu caráter político; e o choque dessas placas tectônicas provoca por vezes reações que vão do desprezo pelo outro ao culto deliberado da morte. 1 ARTAUD, O teatro e seu duplo, 25. UFSM Voluntas: Revista Internacional de Filosofia DOI: 10.5902/2179378643749 Santa Maria, v. 11, e34, p. 1-11 ISSN 2179-3786 Ed. Especial: Pandemia e Filosofia Submissão: 23/04/2020 Aprovação: 05/07/2020 Publicação: 08/07/2020