Novas tecnologias, novas utopias * Fátima Vieira Universidade do Porto (Portugal) Resumo Começarei este meu trabalho falando de um paradigma utópico que, na minha opinião, se encontra emergente na viragem do século XX para o século XXI. Esse paradigma, como então exporei, caracteriza uma nova atitude do homem contemporâneo face à utopia, encontrando reflexos quer na nossa vida quotidiana e no pensamento político quer na própria literatura. O espírito reemergente toma a utopia simultaneamente como ideal e como sonho, isto é, como princípio orientador que, colocado no nosso horizonte, nos indica um caminho a seguir sem contudo nos fazer cair na tentação de o tentarmos realizar. Estamos portanto agora a entrar num quinto período (em relação aos quatro períodos descritos por Baccolini e Moylan) em que o sonho volta a ser acarinhado, tendo o utopista (e ainda bem que assim é) a consciência de que se trata apenas de um sonho. Nas margens da literatura utópica canónica, a hiperutopia – designação que proponho neste trabalho para alguns sítios da Internet cuja textualidade e organização se fundamentam na tessitura narrativa da hiperficção – contribui para a ressurgência deste entendimento utópico informado pela índole desejante humana. A hiperutopia encerra em si uma renovação do género literário, mais conforme a estes tempos em que os leitores se vão assumindo cada vez mais como internautas, e em que, como premonitoriamente disse Foucault, a imaginação se torna cada vez menos histórica para assumir progressivamente uma feição mais espacial. No espaço virtual da Internet, a hiperutopia assegurará certamente a sobrevivência da utopia literária; até que o desenvolvimento de outras novas tecnologias conduza a mais (re)invenções utópicas. Palavras-chave Utopia, hiperutopia, gênero literário. Fátima Vieira é professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde leciona desde 1986. Tendo defendido a sua dissertação de doutoramento em 1998 sobre a obra de William Morris e a tradição de literatura utópica inglesa, Fátima Vieira especializou-se na área dos estudos sobre utopia. É atualmente coordenadora de dois projetos de pesquisa financiados pela FCT e diretora da coleção Biblioteca das Utopias da editora Quasi, bem como de dois periódicos eletrônicos. Como docente, tem trabalhado essencialmente na área da Cultura Inglesa, tanto no nível de graduação, como no de pós-graduação. Fátima Vieira é também membro do Instituto de Estudos Ingleses da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, integrando, desde a fundação, o grupo de pesquisadores que têm se dedicado à tradução e estudo da obra de Shakespeare. No âmbito deste projeto de pesquisa, publicou A Tempestade (Porto: Campo das Letras, 2001). Tem organizado e participado de muitos colóquios nacionais e internacionais, sendo autora de diversos artigos na área dos estudos da utopia, dos estudos culturais e dos estudos shakespearianos. Tem assumido igualmente a responsabilidade da organização de vários volumes de ensaios nestas áreas de estudo. * Este texto foi publicado originalmente nas Atas do VII Colóquio do Curso de Sociologia, Novas Tecnologias e Imaginário. Braga: Universidade do Minho, 2006, p. 11-27.