71 ARTIGOS Nomear é trazer à existência Nomear é trazer à existência: a onomástica (de crianças e de bichos) e os apelidos na produção da pessoa Capuxu Emilene Leite de Sousa (UFMA) APRESENTAÇÃO Esta reflexão onomástica constituiu parte de minha pesquisa sobre a produção da pessoa Capuxu à luz da análise dos corpos das crianças. E sobre como, através de fortes investimentos feitos no corpo da criança e de demais aspectos - como o sistema endogâmico com união preferencial entre primos e o sistema de apadrinhamento - o sistema de nominação fundava a pessoa Capuxu e, de forma mais ampla, a própria identidade do povo. O povo Capuxu é um grupo camponês endogâmico que habita o Sítio Santana- Queimadas no sertão da Paraíba. Este povo vive basicamente da agricultura de subsistência e construiu uma identidade coletiva reconhecida por todos os habitantes das redondezas. Ele se autodenomina e é denominado como povo Capuxu, fazendo alusão a uma espécie de abelha de tipo capuxu que teria sido objeto de caça de um de seus antepassados, João Capuxu, tendo se tornado o apelido Capuxu o etnônimo do povo. A comunidade consta de quase duzentos habitantes e praticamente quatro sobrenomes: Ferreira, Menezes, Lima e Costa. Além disso, foi caracterizada em sua origem por um modo de nomear endonímico, com transmissão de nomes, passando com o tempo a se tornar exonímico. Neste artigo analisarei o processo através do qual o sistema endonímico tornou-se exonímico e como, para além da onomástica, os apelidos e a atribuição dos nomes aos bichos fazem parte da constituição da pessoa Capuxu. O sistema de nominação, vinculado ao sistema de parentesco, é um importante indicador da fabricação da pessoa 1 . Por isso, ele representou importante foco de análise desta pesquisa, cujo objetivo era a analisar a produção da pessoa Capuxu. Entre os Capuxu podemos dizer que o ato de nomear as crianças é um importante momento na produção da pessoa. Além de se constituir num signo de identidade, a nomeação revela formas de identificação, interação e distinção entre indivíduos e entre grupos. Campos 15(1):71-97, 2014