A Análise de Redes Sociais (ARS) e a Migração: mito e realidade *1 Dimitri Fazito UFMG/Cedeplar Freqüentemente encontramos nos estudos de migração, embora de maneira pouco clara e consistente, referências às chamadas “redes sociais” (Massey et alli, 1987; Boyd, 1989; Kritz e Zlotnik, 1992; Portes, 1995; Tilly, 1990; Martes, 1999). Algumas vezes elas são utilizadas como mecanismos heurísticos para uma análise alternativa à tradicional perspectiva econômica, noutras vezes elas aparecem como um “problema empírico” que, mesmo ao leitor de boa vontade, não fornece a legitimidade necessária para ser tratada como matéria sujeita à observação científica. Portanto, embora o interesse sobre as “redes” tenha crescido no campo dos estudos de migração, especialmente a partir dos trabalhos de Douglas Massey e seus colegas (Massey et alli, 1987 e 1997), parece-nos que o debate ainda se limita aos aspectos metafóricos das redes sociais, isto é, as análises não avançam para além da simples descrição e, na maioria das vezes, apenas a sugestão de sua existência. Aparentemente, devido à consolidação de alguns conceitos e idéias nas análises migratórias, como “corrente migratória”, “pólos de atração/expulsão” e “redes pessoais e familiares”, tornou-se cada vez mais comum o uso da metáfora da “rede social” como representação de um sistema migratório onde determinadas regiões espaciais trocam pessoas, recursos materiais e informações, e estabelecem laços ou conexões sólidas que poderiam explicar a origem, o desenvolvimento e o recrudescimento de tais fluxos (Kritz e Zlotnik, 1992; Fawcett, 1989;). Percebe-se, através desses conceitos e suas teorias, a busca por um modelo que represente o fenômeno migratório em diferentes dimensões (macro/micro) – regiões específicas se conectam através de fluxos de ordens variadas; pessoas migram através de uma “instituição invisível”, que são as redes familiares ou pessoais; o contato com atores e canais (muitas vezes físicos, ou apenas * Trabalho apresentado no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, realizado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil de 4 a 8 de novembro de 2002. 1 Gostaria de agradecer ao apoio recebido pelo CEDEPLAR, na pessoa de José Alberto M. Carvalho, e também os comentários e amizades “enredadas” de Weber Soares (CEDEPLAR) e Leonardo H.G. Fígoli (professor do departamento de sociologia e antropologia da UFMG).