1 A Semana de Arte Moderna: platinofilia e nacionalização do mercado de trabalho em São Paulo In Aracy A. Amaral e Regina Teixeira de Barros (Curadoria e texto de apresentação) Moderno onde? Moderno quando? A Semana de 22 como motivação. Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, S.P., 2021, pp. 19-30 Luiz Felipe de Alencastro A Semana de Arte Moderna transcorre na convergência de duas mudanças decisivas na história brasileira. Uma na esfera sul-atlântica, outra no âmbito do território nacional. A primeira mudança, relativa à emergência da Argentina como concorrente e eventual modelo do “progresso à americana”, repercute no Rio de Janeiro e em São Paulo. A segunda, derivada das migrações do Nordeste para o Centro-Sul – simultaneamente ao declínio da entrada de imigrantes no Brasil –, tem como teatro central a capital paulista e o estado de São Paulo, mas transforma o país inteiro. Na esfera internacional, cabe lembrar as alterações sobrevindas na história mundial e latino- americana no final do século XIX e início do século XX. A mais profunda delas foi a irrupção da Alemanha como grande Estado-Nação a partir de 1870. Depois de derrotar a França, Bismarck organiza, na Conferência de Berlim (1884-1885), a partilha da África, atribuindo à Alemanha seu quinhão colonial. 1 O pangermanismo entra em cena, alardeando pretensões territoriais da Europa, mas também reivindicando a filiação germânica de zonas ultramarinas. Num atlas escolar alemão difundido no entreguerras e intitulado Deutscher Volks-und Kulturboden [Terras étnicas e culturais alemãs], o Brasil aparece como o país sul-americano dotado da maior população de origem alemã, com grande relevo para Blumenau, destacada no mapa como única cidade de nome germânico no subcontinente. 2 Surgem movimentos pró- alemães no sul do país e alertas na imprensa brasileira, mas também na França, sobre um separatismo pró-alemão no Brasil. Adicionando-se à francofilia dominante entre os intelectuais brasileiros, o debate sobre a ameaça interna pangermanista ganha foros de questão internacional. O grande historiador francês Henri Hauser, ativo na criação da Universidade de São Paulo (USP) e professor na Universidade do Distrito Federal (1936- 1937), onde Sérgio Buarque de Holanda foi seu assistente, publicou em 1916 um livro 1 Henri Brunschwig. Le Partage de l'Afrique noire. Paris: Flammarion, 2009. 2 Biblioteca Digital da Cornell University. Disponível em: https://digital.library.cornell.edu/catalog/ss:3293930. Acesso em: 30 maio 2021.