Percursos iniciáticos na ficção narrativa de Luís Cardoso: para uma leitura de O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação MICAELA RAMON 1 micaelar@ilch.uminho.pt 1. Esoterismo, exoterismo e literatura: um percurso de confluências Na sua origem, o termo “esoterismo” foi empregue nas escolas filosóficas da Grécia antiga para designar “o ensinamento da dimensão mais profunda e elevada de uma doutrina” (BLANC in BARBUDO, 2001:117) transmitida por via oral a um escol de discípulos especialmente habilitados para a compreenderem em virtude do seu elevado grau de instrução e apurada moralidade. Assim entendido, o vocábulo recobria um sentido que se opunha ao de “conhecimento exotérico” que, por seu turno, se destinava a um público mais vasto ao qual era apresentada uma versão mais simplificada e acessível de tal doutrina. Por conseguinte, “esoterismo” e “exoterismo” surgem como termos correlatos, já que o primeiro se associa à “conceção (…) de uma doutrina metafísica” enquanto o segundo remete para “a sua expressão ou exteriorização por intermédio de palavras e símbolos, requerendo a compreensão autêntica a passagem da letra ao espírito ou da pura literalidade do sentido à sua intelectualidade através da mediação discursiva ou racional” (BLANC in BARBUDO, 2001: 117). Enquanto arte verbal, a literatura define-se também como uma atividade estética na qual inventio e elocuio convergem para a criação da designada “literariedade”, entendida esta como um processo de desautomatização da perceção que permite, tanto do ponto de vista da criação como da receção, produzir e reconhecer um sistema de signos através dos quais se decifram os nexos insólitos e inusitados de “mundos possíveis”, neles incluída a realidade empírica e todas quantas a mente humana possa conceber. Neste sentido, a arte literária afigura-se como uma possível tentativa de superação do paradoxo kantiano expresso no reconhecimento de que “a Razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais não pode dar resposta por ultrapassarem completamente as suas capacidades” (apud VIEGAS in BARBUDO, 2001: 61). 1 Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho.