ARTIGOS BURGUESIA, CORPORATIVISMO E DEMOCRACIA NO BRASIL ( 1946 / 1964 ) Paulo Roberto Neves Costa Universidade Federal do Paraná RESUMO O objetivo deste artigo é analisar a relação entre a burguesia paulista e a constituição da estrutura corporativa sindical nos anos 30 e sua manutenção no regime político democrático brasileiro que se inicia em 1946. O objeto principal de pesquisa é a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP) nos anos 50. PALAVRAS-CHAVE: democracia, corporativismo, ação política do empresariado, burguesia comercial, Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Este artigo analisa alguns aspectos do processo político de institucionalização da organização corporativa sindical no Brasil — no que diz respeito à representação políti- ca das classes dominantes — , e sua manu- tenção no regime político de 1946/1964, pe- ríodo no qual tal estrutura desenvolve-se, as - sume grande importância, ganha uma nova dimensão organizacional e marca o próprio funcionamento do regime político demo- crático1. A ação política da burguesia paulis- ta e da entidade sindical de segundo grau representante do comércio paulista, a Fede- ração do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP) no período dos anos 50, serve de referência para tal análise. 1 As discussões desenvolvidas neste artigo fa- zem parte da Tese de Mestrado — em fase de redação final — Burguesia comercial paulista e Parlamento nos anos 50: a Federação do Co- mércio do Estado de São Paulo , a ser apresen- tada no Instituto de Filosofia e Ciências Huma- nas da Universidade Estadual de Campinas, sob orientação do Prof. Dr. Décio Saes. Agradeço as sugestões de Andréa Abrahão Costa, Adriano Nervo Codato, Renato Perissinotto, Hiro Kuma- saka e Ricardo de Oliveira. I. CORPORATIVISMO E REPRESENTAÇÃO POLÍTICA DAS CLASSES DOMINANTES A complexidade e a diversidade dos con- ceitos e das experiências concretas de corpo- rativismo impossibilita que se faça no âmbi- to deste trabalho uma discussão teórica — com pretensões de originalidade — sobre tal problemática. Diante disto, parece ser mais proveitoso para os nossos objetivos definir o que esta- mos entendendo por corporativismo e por estrutura corporativa, sem pretender criar um conceito ou enquadrar a experiência bra- sileira em alguma tipologia (s o c i e t a l , l i b e r a l , estatal, neocorporativismo etc.) — ainda que nossa pesquisa possa trazer alguma con- tribuição neste sentido —, para poder pensar as principais características do corporativis- mo no Brasil, em especial no regime demo- crático de 46/64. O corporativismo, tal como entendido a- qui, é uma forma de organização/representa- ção política de classe, possível em regimes políticos autoritários ou democráticos, que, embora se caracterize pela existência do mo- nopólio no processo de representação corpo-