UTILIZAÇÃO DA ÁGUA DE LAVAGEM DAS ROLHAS, COM ELEVADO TEOR DE H 2 O 2 , NO TRATAMENTO DO EFLUENTE DA COZEDURA DA CORTIÇA POR OXIDAÇÃO FOTO-FENTON SOLAR A. M. A. PINTOR, V. J. P. VILAR, R. J. E. MARTINS e R. A. R. BOAVENTURA Laboratório de Processos de Separação e Reacção (LSRE), Departamento de Engenharia Química (DEQ), Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Porto, Portugal e-mail: ariana.pintor@fe.up.pt, vilar@fe.up.pt, rmartins@ipb.pt, bventura@fe.up.pt RESUMO – Os efluentes da indústria corticeira contêm elevadas concentrações de compostos orgânicos recalcitrantes e de difícil biodegradabilidade, constituindo um grave problema ambiental. Neste trabalho, estudou-se a hipótese de tratar estes efluentes por oxidação foto-Fenton solar, utilizando o efluente da lavagem das rolhas, rico em H 2 O 2 (4,3 g/L), como reagente para o tratamento do efluente da cozedura da cortiça (COD = 891,5 mg/L e CQO = 2403 mg O 2 /L). A degradação do COD neste processo segue uma cinética de ordem zero, após um periodo de indução. Da realização de quatro ensaios com diferentes concentrações de ferro, concluiu-se que a concentração óptima de ferro a utilizar neste processo é de 60 mg/L, obtendo-se uma mineralização de 91% após a incidência de 16,6 kJ UV /L de radiação UV solar. Esta solução, para além de rápida e eficaz, tem a vantagem de tratar ambos os efluentes em simultâneo. PALAVRAS-CHAVE: foto-Fenton solar; efluentes da indústria corticeira; processos de oxidação avançados 1. INTRODUÇÃO Portugal é líder no sector corticeiro, quer ao nível da área de montado de sobro, quer ao nível da produção de cortiça (APCOR, 2009). O tratamento industrial da cortiça envolve etapas de preparação, manufactura, aglomeração e granulação, maioritariamente com vista à produção de rolhas. Neste processo, são produzidos dois tipos de efluentes líquidos: um resultante da cozedura da cortiça e outro da lavagem das rolhas para desinfecção e branqueamento. A cozedura da cortiça é realizada através da fervura de pranchas de cortiça em água, que pode ser reutilizada cerca de 20- 30 vezes. Deste tratamento resulta um efluente escuro de cerca de 400 L por tonelada de cortiça preparada (Vilar et al., 2009). Este efluente tem uma elevada carga orgânica não biodegradável (CBO 5 /CQO 0,2) e elevada concentração de polifenóis (Guedes et al., 2003). Assim, o tradicional tratamento por processos biológicos torna-se de difícil aplicação. O efluente produzido na lavagem das rolhas apresenta na sua constituição compostos desinfectantes, como peróxido de hidrogénio, peróxido de sódio, hidróxido de sódio ou carbonato de sódio. A sua carga orgânica é inferior à da água da cozedura da cortiça, mas igualmente recalcitrante, podendo ocorrer a presença de clorofenóis, ISSN 2178-3659 179