CIRCUMSCRIBERE 12 (2012): v-viii v Uma “viagem” entre documentos e fontes Ana M. Alfonso-Goldfarb ; Márcia H.M. Ferraz* & Patrícia Aceves + É bastante frequente a ideia de que muitos dos problemas na complexa pesquisa em história da ciência seriam resolvidos, quase num passe de mágica, a partir do acesso a ricas coleções de documentos. De maneira sábia, porém, G. Canguilhem adverte para os riscos de assumir essa ideia de forma automática e, consequentemente, sem critérios prévios. Um de seus exemplos mais conhecidos é o da imensa e suposta biblioteca, capaz de conter todas as obras em ciência do século XIX. Mas, essa espécie de sonho bibliográfico, ele diz, poderá se transformar num labirinto sem saída (e de pouco uso) para alguém que desconheça os meandros históricos e documentais do período, mesmo que bem treinado na ciência presente. 1 Não é difícil estender um pouco mais as previsões de Canguilhem e considerar que, sem estabelecer previamente os critérios de busca, até mesmo um especialista poderá ver a coleção de seus sonhos transformar-se num labirinto semelhante. Na verdade, sempre e quando uma coleção assim é franqueada, e após a inevitável euforia inicial, todos (sejam especialistas ou não) passam a correr o risco de perder o rumo em seus meandros. Para tanto, bastaria cometer alguma imprudência, como a de imaginar que essas salas do tesouro se abrem, completa e naturalmente, apenas com as chaves de sua porta de entrada. Ou seja, para além de suas portas (físicas ou eletrônicas), quase sempre estão à espreita outros muitos e novos obstáculos. Nesse caso, caberia um exemplo já bem conhecido, mas nem sempre lembrado: é quase impossível analisar, ao mesmo tempo, em detalhe e por completo (ou seja, item por item e de ponta à ponta) um fundo documental que mereça esse nome. Talvez, se o tempo e a capacidade de análise fossem infinitos, haveria possibilidade de evitar os resultados inócuos desse tipo de voo, míope e sem bússola, sobre longas séries de documentos. Mas, evitar análises pretenciosas e descabidas, como essa, não significa estar livre dos obstáculos. De fato, quaisquer que sejam os arquivos, bibliotecas, museus ou bases de dados – por mais completos ou organizados que pareçam – pouco ou nada terão a oferecer se não forem inqueridos prévia e devidamente. Coordenadora do Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência (CESIMA), PUC-SP, e-mail: aagold@dialdata.com.br; * Coordenadora do Programa de Estudos Pós Graduados em História da Ciência, PC-SP, e-mail: mhferraz@pucsp.br; + Professora Titular, Departamento de Sistemas Biológicos, Universidad Autónoma Metropolitana, Unidad Xochimilco, México, e-mail: paceves@correo.xoc.uma.mx 1 Georges Canguilhem, Idéologie et rationalité dans l´histoire des sciences de la vie (Paris: Vrin, 1981), em 14.