CIÊNCIA & ENSINO Jornal Semestral do gepCE – Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciência e Ensino FE - Unicamp Dezembro, 1998 ISSN 1414-5111 Número 5 A HISTÓRIA DA CIÊNCIA E O ENSINO DA BIOLOGIA Lilian Al-Chueyr Pereira Martins Lilian Al-Chueyr Pereira Martins é Especialista em História da Ciência (UNICAMP), Mestre e Doutora em Ciências Biológicas na área de Genética (UNICAMP), pós-doutoranda da FAPESP, pesquisadora do Grupo de História e Teoria da Ciência do DRCC/IFGW/UNICAMP. Caixa Postal 6059, 13081-970 Campinas, SP; home-page http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc, e-mail lacpm@uol.com.br Introdução A História da Ciência pode ser utilizada como um dispositivo didático útil, contribuindo para tornar o ensino da ciência a nível médio mais interessante e facilitar sua aprendizagem. Isso pode ser aplicado tanto ao ensino da Biologia como ao ensino de outras disciplinas. Mas além disso, a História da Ciência pode fazer bem mais pelo ensino, como por exemplo: a) Mostrar através de episódios históricos o processo gradativo e lento de construção do conhecimento, permitindo que se tenha uma visão mais concreta da natureza real da ciência, seus métodos, suas limitações. Isso possibilitará a formação de um espírito crítico fazendo com que o conhecimento científico seja desmitificado sem, entretanto, ser destituido de valor. Assim, o estudo da história da ciência deve evitar que se adote uma visão ingênua (ou arrogante) da ciência, como sendo “a verdade” ou “aquilo que foi provado”, alguma coisa de eterno e imutável, construída por gênios que nunca cometem erros e eventualmente alguns imbecis que fazem tudo errado. Por outro lado, deve impedir a adoção de uma visão anti-cientificista de que todo conhecimento nada mais é do que mera opinião, que todas as idéias são equivalentes e que não há motivo para aceitar as concepções científicas. No primeiro caso, a história da ciência irá mostrar através de uma análise histórica que a ciência muda no decorrer do tempo e que ela é feita por seres humanos falíveis que podem aperfeiçoar o conhecimento, o que não significa que suas propostas possam ser consideradas definitivas. No segundo caso, a história da ciência mostrará que, apesar de cometerem erros, os cientistas não agem cegamente e costumam se basear em evidências. b) A História da Ciência mostra, através de episódios históricos, que ocorreu um processo lento de desenvolvimento de conceitos até se chegar às concepções aceitas atualmente. Isso pode facilitar o aprendizado do próprio conteúdo científico que estiver sendo trabalhado. O educando perceberá que suas dúvidas são perfeitamente cabíveis em relação a conceitos que levaram tanto tempo para serem estabelecidos e que foram tão difíceis de atingir. c) Através da História da Ciência o educando irá perceber que a aceitação ou o ataque a alguma proposta não dependem apenas de seu valor intrínseco, de sua fundamentação, mas que também nesse processo estão envolvidas outras forças tais como as sociais, políticas, filosóficas ou religiosas. O que se deve evitar quando se aplica a história da ciência ao ensino da ciência? Nem sempre o uso de História da Ciência no ensino é adequado. Há muitas coisas que se deve evitar, pois podem atrapalhar, ao invés de auxiliar o ensino 1 . Em primeiro lugar, deve-se fugir de biografias longas, repletas de datas, sem nenhuma referência à filosofia e às idéias científicas, ao contexto temporal, social e cultural daquilo que se está ensinando (MARTINS, 1993). Deve-se evitar também mostrar apenas aquilo que “deu certo”, omitindo as dificuldades encontradas e as propostas alternativas. Essa foi a causa do fracasso de algumas tentativas feitas. Esse tipo de procedimento contribui para que o educando tenha uma visão tendenciosa a respeito do conteúdo científico que está sendo trabalhado. Deve-se evitar também não considerar ou mesmo desvalorizar a experiência do próprio aluno. Em vez disso, deve- se trabalhar com ela, procurando mostrar que muitas vezes suas idéias são semelhantes às de alguma das etapas pelas quais passou a construção daquele conceito. A história da biologia e os livros didáticos Uma das utilidades da História da Ciência é procurar esclarecer concepções históricas errôneas que vêm sendo perpetuadas no decorrer do tempo, muitas delas por culpa mesmo de alguns historiadores da ciência. Analisando alguns livros didáticos de nível médio destinados ao ensino da Biologia, com relação a três pontos específicos 2 – geração espontânea, a teoria de “evolução” de Lamarck 3 e a teoria cromossômica da hereditariedade – encontrou-se esse tipo de problema. Vamos agora discutir um pouco sobre isso, reproduzindo textos encontrados nesses livros da maneira exata em que foram encontrados. 1 Há muitos estudos sobre o modo como a História da Ciência pode contribuir para o ensino. Ver, por exemplo: MANUEL, 1986. 2 Cada um desses aspectos foi pesquisado por nós durante um período de dois anos, ou mais. 3 É importante comentar que Lamarck propôs o que nós chamamos, hoje, de uma teoria de evolução. Em sua época, entretanto, o termo "evolução" apresentava uma conotação diferente daquela que se adota atualmente. Este era empregado no sentido de descrever o desenvolvimento ontogenético, ou seja o desenvolvimento de um indivíduo desde o ovo até a sua fase adulta. 18