J Infect Control 2015; 4 (3): X-X Ofcial Journal of the Brazilian Association of Infection Control and Hospital Epidemiology Professionals > ACESSE AQUI A REVISTA ONLINE Páginas 01 de 02 não para fns de citação As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) são hoje reconhecidamente um problema de saúde pública, cuja carga de morbidade é grande em todo mundo. 1 A magnitude do problema é tal que as IRAS encontram-se entre as 10 principais causas de morbidade e mortalidade nos Estados Unidos. 2 Po- rém, este fenômeno é particularmente relevante em países em desenvolvimento. 3 Entretanto, apenas a partir da década de 2000 a prevenção de IRAS passou a ser uma prioridade para a OMS. 4 Entre as medidas de prevenção das IRAS, a higiene das mãos (HM) é considerada a mais simples, econômica e efetiva. O objetivo deste artigo é apresentar uma síntese da evolução histórica e o atual “Estado da Arte” no que tange as recomendações para HM. A importância da HM nasceu segundo a perspectiva de um médico húngaro Ignaz Philip Semmelweis(1818-1865), no século XIX e contou com a participação de vários protagonistas, que hoje trazem inovações para esta prática. Semmelweis, considerado um dos “gigantes da medicina” foi chamado de “pai” do controle IRAS, devido ao trabalho de- senvolvido em um hospital de Viena, nos anos de 1847, quando introduziu a HM compulsória para todos os médicos e estudan- tes de medicina. 5 Semmelweis elegeu uma solução de hipoclorito de cálcio para a HM. O produto é altamente agressivo, a solução irrita a pele até sangrar. Mas o resultado esperado foi atingido e as taxas de mortalidade despencaram. 5 Apesar de sua capacidade como médico e como pesqui- sador detalhista, Semmelweis não foi um grande estrategista para favorecer a incorporação desta nova evidência científca. Ao contrário, adquiriu muitos inimigos, não fez uma publicação em tempo oportuno de seus dados e a comunidade científca na área de saúde manteve-se de modo geral indiferente ou até mesmo contrária às suas recomendações por muitos anos. 6 Assim sendo, apesar dos resultados positivos, os efeitos não se mantiveram. Semmelweis desconsiderou a agressividade do produto e a parti- cipação dos profssionais e culpou os mesmos pelas mortes rela- cionadas. Afastado da assistência, morreu aos 47 anos, antes dos estudos de Pasteur indicar a etiologia microbiana das infecções. Na enfermagem, temos como referência a Enfermeira Florence Nightingale (1820-1910), que revolucionou as bases da assistência de enfermagem a partir das suas ações no hospital de Scutari na Guerra da Criméia. Pioneira nas ações relacionadas ao controle de infecção trabalhou com sua equipe em um hospital que chegava a atender 4.000 feridos de guerra. Florence não fez uma advocacia exclusivamente focada na HM, porém reforçou a relevância da adoção de ações estritas de higiene pessoal e do ambiente assistencial. Medidas como separação de áreas limpas e sujas e a criação de fuxos na assistência reduziram a taxa de mortalidade de 33% para 2%. 7 No decorrer dos anos seguintes, a força da evidência quan- to à efcácia da HM na prevenção de IRAS foi sendo demons- trada. Entretanto, a falta de adesão dos profssionais de saúde se mantinha. A pesada carga de trabalho, as poucas pias e longe dos locais de assistência, a irritação da pele pela lavagem frequente das mãos, a não identifcação de uma “sujidade visível” e o tempo elevado requerido para lavagem de mãos eram colocados como argumentos comuns para justifcar a baixa adesão. Assim sendo, se para os profssionais a lavagem de mãos frequente consumia muito tempo, era pouco prática e irritava a pele, seria necessário identifcar e prover um método de HM que fosse efcaz, rápido, conveniente, prático e não irritante. Surgiu então a proposta de utilização de produto alcoólico associado com um emoliente como uma alternativa para a HM. Um es- tudo demonstrou que o tempo requerido em UTI para lavagem de mãos seria em média de 62 segundos (ir à pia, lavar, secar e retornar para o paciente), enquanto a HM com produto alcoólico demoraria 20 segundos e poderia ser praticada à beira do leito. 8 A partir deste momento, iniciou-se uma verdadeira revo- lução conceitual, apontando uma alternativa à clássica lavagem de mãos: a antissepsia com o uso do produto alcoólico, cuja recomendação passa a ser pivotal nos principais guias de reco- mendação sobre o tema. 9,10 Porém não basta ter a recomendação. Higienização das Mãos: a evolução e o atual “Estado da Arte” Marcia Maria Baraldi 1 , Maria Clara Padoveze 1 1 Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil. Recebido em: 27/04/2015 Aceito em: 28/06/2015 marciajahu@live.com CARTA AO EDITOR