PORTO MARAVILHA, RENOVAÇÃO URBANA E O USO DA NOÇÃO DE RISCO: UMA CONFLUÊNCIA PERVERSA NO MORRO DA PROVIDÊNCIA Rafael Soares Gonçalves * RESUMO O projeto Porto Maravilha está modifcando completamente o tecido urbano da zona portuária da cidade. Nesse contexto, o Morro da Providência é alvo de inúmeras intervenções públicas. Dentre as inúmeras intervenções, o presente artigo pretende-se voltar, em especial, para as intervenções legitimadas pelo discurso do risco. Nesse sentido, analisaremos, em primeiro lugar, a dinâmica de retorno ao centro, sobretudo com o projeto Porto Maravilha. Posteriormente, trabalharemos a emergência do discurso do risco como norteador de políticas urbanas locais, sobretudo depois das chuvas de abril de 2010 e, por fm, analisaremos a confuência perversa entre renovação urbana e risco, tendo como foco de análise o Morro da Providência e, em especial, a localidade da Pedra Lisa. Palavras-chave: Remoção. Porto Maravilha. Morro da Providência. Risco Ambiental. A cidade do Rio de Janeiro entrou em uma nova fase de investimentos com modifcações importantes no seu espaço urbano após longos anos de esvaziamento econômico. As novas descobertas petrolíferas, a retomada da indústria naval, a chegada de grandes empreendimentos no Estado do Rio de Janeiro e, o mais importante, a escolha da cidade para sediar vários eventos de porte internacional, tais como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, constituíram o contexto propício para um novo ciclo de dinamismo econômico. Conforme analisamos em um trabalho anterior (GONÇALVES, 2013, p. 51), a conquista desses eventos modifcou completamente a forma de planejar e gerir a cidade, mobilizando importantes recursos públicos e atraindo vultosos investimentos privados. Observava-se, ao menos até o início das manifestações de junho de 2013, certa euforia com o futuro da cidade, que parecia vencer o auspício do esvaziamento econômico e do aumento incontrolável da violência, retomando parte da sua centralidade econômica e política. Apesar dos discursos voltados para os pretensos legados sociais de tais eventos, consolida-se um novo modelo de cidade elitista e excludente. A “cidade * Doutor em História pela Universidade Paris VII. Professor do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio. E-mail: rafaelsgoncalves@yahoo.com.br