Heidegger, Oriente e Tecnologia Edgar Lyra 1. Heidegger não buscou no diálogo com o Oriente nenhuma superação dos impasses ocidentais O propósito deste texto é situar na obra de Heidegger o interesse pelo pensamento oriental, mais especificamente, discutir o porquê desse interesse específico em meio à sua motivação principal: o Ser. Tal esforço não envolve preocupações historiográficas ou cronológicas pensadas como fins em si mesmos; tampouco comparações detalhadas entre o pensamento de Heidegger, o Taoismo, o Zen Budismo ou o Budismo Mahayana. Fique sobretudo claro que, nem de longe o questionamento aqui desenvolvido sugere enxergar no pensamento oriental, em qualquer dos seus possíveis recortes, um modelo alternativo, em algum sentido superior, capaz de ensinar ao Ocidente a corrigir seus descaminhos históricos e melhor lidar com os seus atuais impasses como se esses impasses não fossem hoje planetários e de todo misteriosos em sua procedência. Heidegger foi claro a esse respeito. Afirmou no diálogo de título De uma Conversa sobre a Linguagem, entre um pesquisador e um japonês, publicado na coletânea A Caminho da Linguagem, que “a tarefa do pensamento atual é pensar o que os gregos pensaram de maneira ainda mais grega” (1954, p. 134). 1 À revista Der Spiegel, em 1966, cobrado sobre uma possível superação dos dilemas da contemporaneidade, afirmou que “uma viravolta só pode ser preparada a partir do mesmo lugar em que surgiu o mundo técnico moderno. Foi mais explícito ainda ao dizer que a mudança não pode se dar pela introdução do budismo Zen ou outras experiências orientais do mundo. Para mudar faz-se necessária a ajuda de uma nova assimilação da tradição europeia. O pensamento só se transforma por outro pensamento da mesma procedência e determinação (Bestimmung)(p.215). 2 Não encontra respaldo nos escritos de Heidegger, enfim, como quer que isso possa ser avaliado, a ideia de que ele pretendesse haurir de certa tradição espiritual oriental “soluções” para os impasses do pensamento ocidental. 1 Tradução brasileira, p. 105. 2 O número da revista só foi publicado após sua morte. Tradução brasileira, p. 86.