1 EQUILÍBRIO ESTATÍSTICO DE MERCADO — UMA APRESENTAÇÃO DIDÁTICA DE UMA CRÍTICA SUTIL Eleutério F. S. Prado Jorge Eduardo de C. Soromenho 1. Introdução Sabemos, hoje, que o programa de pesquisa constituído pela teoria do equilíbrio geral — na versão Arrow-Debreu — é um programa de pesquisa que não conseguiu resolver os seus problemas centrais, encontrando-se, provavelmente, em processo de superação (Soromenho, 1997). O problema da existência do equilíbrio foi resolvido, mas o problema da unicidade não parece ter tido solução satisfatória. Mesmo quando é possível provar a existência de um ponto fixo no processo de tâtonnement, isto não garante que o processo seja estável. Ingrao e Israel em The invisible hand... resumem assim a conclusão obtida do trabalho de vários teóricos como Scarf, Sonnenschein, Mantel e outros a respeito do problema da estabilidade global: “... a análise matemática da teoria do equilíbrio geral, no contexto das hipóteses clássicas codificadas pela axiomatização de Debreu, levou a um resultado claro. Há uma contradição entre os objetivos da teoria e as conseqüências derivadas do sistema de hipóteses que constituem a sua estrutura.... A grande contradição revelada é a seguinte: uma das maiores forças da teoria ⎯ a reinvindicação de que é capaz de produzir resultados significativos a partir de hipóteses muito gerais sobre o comportamento dos agentes econômicos ⎯ transformou-se em sua grande fraqueza... é impossível obter qualquer resultado significativo, a menos que se faça uso do recurso ilusório de impor condições muito restritivas nas funções agregadas” (Ingrao & Israel, 1990, p. 346). Ora, supor, por exemplo, que os bens são substitutos brutos no agregado para provar a estabilidade global do equilíbrio vem a ser assumir algo que não pode ser derivado dos axiomas da teoria, axiomas estes que definem os comportamentos possíveis dos agentes econômicos, dos quais tudo o mais deveria ser derivado. Tais problemas surgem, entretanto, num contexto de análise econômica determinista que se pauta pela busca de exatidão demonstrativa: uma crítica ao individualismo metodológico adotado generalizadamente pelos teóricos neoclássicos recentes, contudo, não vem a ser um crítica interna à própria teoria neoclássica de caráter walrasiano, tal como foi sistematicamente polida no último meio século sob um esforço balizado pelos cânones da topologia. Não seria, porém, o caso de colocar em questão o próprio contexto de análise econômica determinista? Para tanto, apresentamos aqui uma generalização bem simples do modelo neoclássico, baseada em artigo de Duncan Foley (Foley, 1994), a qual se caracteriza por aproveitar certos os recursos teóricos desenvolvidos em mecânica estatística com o propósito de romper com o determinismo do modelo padrão. Essa generalização, sem violar os axiomas básicos do modelo de equilíbrio geral e sem assumir a existência de custos de transação, permite chegar a uma construção com as seguintes características diferenciais: a)