198 Maria Helena de Moura Neves* Resumo: O artigo avalia o descompasso entre a liberdade de expressão, que no Brasil é garanti- da por lei, e ações culturalmente orientadas de patrulhamento do uso linguístico, que proíbem referências a características ou comportamentos de determinados grupos sociais, especialmente minorias. O descompasso se transforma em equívoco grave quando tal policiamento se esten- de às atividades de natureza metalinguística, que, baseadas na reflexão sobre os usos existen- tes, equacionam os significados das entidades do léxico ativado. O estudo examina especificamen- te a tarefa lexicográfica e avalia sua natureza e seu papel, dentro do universo de construção do saber sobre a língua. Palavras‑chave: uso linguístico; liberdade de ex- pressão; tarefa lexicográfica. INTRODUÇÃO A linguagem tem as suas diversas e contínuas manifestações inseridas de um modo natural na vida social de uma comunidade, desde a co- munidade mais restrita, com alta definição legal e cultural, até a co- munidade global, que, com o correr dos tempos, cada vez mais vem incorporan- do e marcando os comportamentos parciais das “aldeias” de cada um. A incorreção políticA do policiAmento dA metAlinguAgem: A propósito do cultivo irrAcionAl do politicAmente corretoem linguAgem * Livre-docente pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Professora da Unesp-Araraquara e da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq). E-mail: mhmneves@uol.com.br NGUA