FLC0115 Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa Conhecimento partilhado p. 1 Waldemar Ferreira Netto Conhecimento partilhado Waldemar Ferreira Netto Para dar continuidade às discussões que fizemos, é importante retomar o modelo de Bruner quanto à atribuição de intenções proposta na característica vínculo de estados intencionais, referente às particularidades da narrativa. (...) Aquele que assobia foi para o mato com seus cunhados procurar animais. O que assobia encontrou um veado e matou. Continuaram; seus cunhados ouviram barulho de caititu. Então, diz que contaram para o que assobia; o que assobia foi onde estavam os caititus. Seus cunhados disseram: "que não mate muitos caititus", disseram. Quando chegou onde estavam os caititus, o que assobia se assustou e chorou muito. Então seus cunhados: "assim vão morder." Então se foram. Quando seus cunhados chegaram lá: "Onde te morderam?", disseram. Então, diz que o que assobia se agachou mostrando o traseiro para sus cunhados. "Então, me morderam aqui", ele disse. 1 No fragmento de narrativa guarani acima, para entender o que se passou é necessário que se conheça muito bem quem é a personagem "aquele que assobia". Trata-se de uma das figuras da floresta que são donas dos animais. Cada um dos animais tem seu dono. A matança de animais é regulada por esses donos dos animais. Matar excessivamente, pode causar problemas para o caçador e para seu grupo. A personagem "aquele que assobia" é dona dos veados [' guaxu'], mas não é dona dos caititus ['koxi']. Por isso, ele se assustou com os caititus e não foi capaz de matá-los. A ação das personagens vai regida por um conjunto de comportamentos esperados para elas. Assim como ocorre para pessoas, que recebem ou adquirem seus status e papéis correspondentes, também se atribui às personagens, numa narrativa, status e papéis. Essa atribuição tem de ocorrer tanto pelo autor da narrativa como pelo ouvinte. Assim, para entender o comportamento da personagem "aquele que assobia", temos de atribuir-lhe o status de "dono dos veados". Não se trata de uma figura qualquer, como fosse uma pessoa membro do grupo dos guaranis; ele é um ser da floresta, cujos poderem vão muito além do que os guaranis têm. Apesar disso, ele é uma figura que se casa com guaranis, faz caçadas, conversa com as pessoas... A atribuição dos status às personagens pelo ouvinte tem de ser igual ou, pelo menos, parecida à do autor da narrativa. Para isso, é fundamental que ambos, autor e ouvinte tenham conhecimentos semelhantes do ambiente em que ocorrem os eventos que estão sendo narrados. Na narrativa acima, temos de saber, antes da narrativa começar, que os animais da floresta tem seus respectivos donos e que "o que assobia" é dono dos veados. Temos de saber, também, que os donos dos animais não podem matar animais diferentes daqueles sobre os quais ele têm poder. Também podemos inferir, porque esses donos não são simplesmente gente, que eles não seriam feridos por outros animais. Logo, a narrativa acima tem um caráter que podemos dizer cômico, já que "o que assobia" diz ter sido mordido no traseiro. Para que uma narrativa como essa tenha o alcance social que pretende ter, é sempre necessário que o conhecimento de mundo do locutor e do alocutário, nos termos de Benveniste, 2 os torne capazes de atribuir os mesmos status e papéis a 1 Tradução minha. (CADOGAN, 1992, p. 258-259) 2 (BENVENISTE, 1989)