1 POR QUE SER “VADIA” EM 2017? DIÁLOGOS COM ORGANIZADORAS DE MARCHAS DAS VADIAS NO BRASIL Morgani Guzzo 1 Resumo: Este trabalho é parte das reflexões realizadas no andamento de minha pesquisa de doutorado, cujo enfoque são as experiências políticas, estéticas e os afetos nas Marchas das Vadias organizadas em cidades brasileiras. A perspectiva feminista decolonial é a lente utilizada para, em diálogo com as sujeitas organizadoras das marchas, discutir os principais aspectos da construção dessa mobilização no contexto latino-americano ou do “Sul” global. Características como a horizontalidade, a autogestão, o enfrentamento à cultura do estupro, a luta por direitos sexuais e reprodutivos, a presença marcante da população trans e de trabalhadoras do sexo, além das críticas de feministas negras, colocam em evidência a questão da interseccionalidade nesse espaço, provocando-nos a pensar a multiplicidade de formas de organização, a diversidade de sujeitas e, até mesmo, a pluralidade das pautas - locais e globais – que constituem as Marchas das Vadias no Brasil. Assim, buscamos neste artigo, levantar e discutir, junto com as organizadoras das marchas, a continuidade da sua organização e realização até o presente, após seis anos da primeira SlutWalk canadense, enfocando os principais pontos que torna essa mobilização importante tanto em nível local (nas cidades) quanto global (para o feminismo), assim como os limites e desafios percebidos pelas organizadoras a cada nova edição. Palavras-Chave: Marcha das vadias. Feminista. SlutWalk. INTRODUÇÃO Quando a primeira SlutWalk foi às ruas, em 3 de abril de 2011, em Toronto, Canadá, mulheres vestidas com lingerie ou roupas consideradas “provocantes”, carregando cartazes e com os corpos pintados com palavras de ordem chamaram a atenção da sociedade e da imprensa local e internacional. O ato foi organizado após o policial Michael Sanguinetti falar, em uma palestra sobre segurança ministrada na Universidade de York, que se as mulheres não se vestissem como “sluts” (vadias, em português), elas não sofreriam assédio sexual. A fala 1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), bolsista Capes. Realiza o doutorado na linha de pesquisa Estudos de Gênero, sob a orientação da Professora Doutora Cristina Scheibe Wolff (UFSC).