Perspectiva Filosófca, vol. 47, n. 2, 2020 SENTIDO E VERDADE: REVISITANDO O PROBLEMA DOS ENUNCIADOS EXISTENCIAIS NEGATIVOS ____________________________________________________ Anderson Luis Nakano 1 RESUMO Este artigo revisita o clássico problema dos nomes próprios vazios, ou ainda, o problema dos enunciados existenciais singulares negativos. Partindo de um parentesco deste problema com o problema (ou paradoxo) do falso, o artigo mostra, em um primeiro momento, como Aristóteles introduz uma distinção entre “nome” e “declaração” com o intuito de separar as condições de sentido das condições de verdade de um enunciado, abrindo assim a possibilidade para que um discurso seja falso sem ser, por isso, destituído de sentido. Em seguida, o artigo mostra como a ideia de que o sentido é anterior à verdade é radicalizada no Tractatus de Wittgenstein, radicalização que tem, como uma de suas consequências, a necessidade de se distinguir entre nomes próprios ordinários (que serão tratados como equivalentes a descrições) e nomes pró- prios logicamente genuínos, para os quais sequer se coloca a questão da exis- tência ou não-existência. Em um terceiro momento, a atenção se volta à obra de Kripke a fm de mostrar como este, ao negar que os nomes próprios da linguagem ordinária sejam equivalentes a descrições, vai chegar, em sua aná- lise dos enunciados existenciais negativos, à recusa daquilo que Aristóteles e Wittgenstein punham como pressuposto, a saber, a anterioridade do sentido de um enunciado em relação à sua verdade ou falsidade. A partir disso, algu- mas conclusões um tanto quanto paradoxais são extraídas da análise de Krip- ke para estes enunciados. Por fm, o artigo busca fornecer uma via para en- tendê-las por meio de uma comparação, ainda que bastante breve, desses enunciados com aquilo que Wittgenstein chama, na sua última obra, de pro- posições fulcrais (hinge propositions). Palavras-chave: Nomes Vazios. Enunciados Existenciais Negativos. Witt- genstein. Kripke. Proposições fulcrais. ABSTRACT In this paper, I revisit the classic problem of empty proper names or, more precisely, the problem of negative singular existential statements. I start by establishing a relationship between this problem and the problem (or para- dox) of how false statements are possible. I then show, in a frst moment, 1 Doutor em Filosofa pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: alnakano@pucsp.br . ORCID: 0000-0002-2221-2333 . 386