Acta Pediatr. Port., 1999; N.° 2; Vol. 30: 157-61 CPAP Nasal no Tratamento da Bronquiolite LURDES MORAIS, FERNANDA MARCELINO, CARMEN CARVALHO, FILOMENA ARAÚJO, PAULA FERREIRA, ANTÓNIO VILARINHO Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos Hospital de Crianças Maria Pia Resumo A bronquiolite é uma patologia frequente e, ainda que rara- mente, pode evoluir para insuficiência respiratória, com neces- sidade de suporte ventilatório. Nesta situação, foi descrita a uti- lização com sucesso do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) nasal, evitando a ventilação mecânica. Trata-se de um modo de ventilação assistida seguro, de fácil utilização e vigilância. Os autores descrevem quatro lactentes com bronquiolite, cuja evolução fazia prever a necessidade de ventilação mecânica, o que motivou o internamento na Unidade de Cuidados Intensi- vos (UCI) do Hospital de Crianças Maria Pia (HMP). Em todos foi iniciada ventilação assistida com CPAP nasal, tendo-se veri- ficado diminuição significativa do esforço respiratório e melhoria da oxigenação nas primeiras horas, com evolução posterior favo- rável. Os autores verificaram que o CPAP nasal, quando utilizado precocemente nas bronquiolites com insuficiência respiratória, permite evitar em alguns casos o recurso à ventilação invasiva. Palavras-Chave: Bronquiolite, insuficiência respiratória, CPAP nasal, lactente. Summary Nasal CPAP in the Treatment of Bronchiolitis Bronchiolitis is a common disease in infants that can cause, though rarely, respiratory failure needing mechanical ventilation. In these cases, the sucess of nasal CPAP has been reported. avoiding invasive ventilation. It is a safe, effective, easily delivered and monitored method of respiratory support. The authors describe four cases of infants impending with respiratory failure from severe bronchiolitis who were admitted to the Intensive Care Unit, treated with nasal CPAP and showed rapid and significant improvement. The authors believe that early application of nasal CPAP in severe bronchiolitis avoids the need for invasive ventilation. Key-Words: Bronchiolitis, respiratory failure, nasal CPAP, infant. Correspondência: Lurdes Morais Hospital Maria Pia Rua da Boavista, 827 — 4050 Porto Entregue para publicação em 19/03/98. Aceite para publicação em 26/01/99. Introdução O termo bronquiolite embora correspondendo à des- crição anatomopatológica de inflamação bronquiolar é também usado para o diagnóstico clínico (I, 2, 3). Este caracteriza-se pela presença de tosse, polipneia, tiragem, expiração prolongada, sibilância e crepitações na auscul- tação pulmonar e insuflação torácica, nos dois primeiros anos de vida. Estes sintomas habitualmente têm início agudo, sucedem a uma infecção respiratória alta vírica e o doente está febril ou subfebril. Os sinais de dificuldade respiratória de evolução crescente e predomínio expira- tório são de gravidade variável 0-6). Com uma incidência de 10 a 20/100 crianças/ano, no primeiro ano de vida, é a doença respiratória aguda mais frequente e constitui uma das principais causas de internamento neste grupo etário (2, 7-10). O maior número de casos (cerca de 80%) ocorre nos primeiros seis meses de vida (2, 8, 10-12) . Habitualmente de etiologia vírica, a bronquiolite caracteriza-se por obstrução inflamatória das vias aéreas inferiores mais distais (3 ' 8' 9' "). O vírus sincicial respira- tório (VSR) é o agente implicado na maioria dos casos (40-90% conforme as séries). Outros vírus responsáveis são: vírus parainfluenza 1, 2 e 3, adenovírus 3, 7 e 21, rhinovírus, vírus influenza a e b, vírus da parotidite e do sarampo (8, 10, 11, 13); Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia trachomatis são também agentes etiológicos possíveis t7• 10,11, 13) Ainda que na maioria dos casos a bronquiolite seja uma situação benigna, com evolução favorável no domi- cílio e sem qualquer intervenção médica específica, 1 a 2% dos lactentes necessitam de internamento (3,7,12). Nos doentes internados a hidratação e a oxigenação adequa- das são o essencial do tratamento. Os broncodilatadores têm eficácia díspar, os corticosteróides e os antibióticos são desprovidos de qualquer interesse e o uso de ribavi- rina tem indicações específicas e ainda controversas (13). A evolução para insuficiência respiratória aguda ocorre