A FORMAÇÃO DO SIGNIFICADO AGENTIVO DE -EIRO Mário Eduardo Viaro Universidade de São Paulo/Brasil gmhp@usp.br RESUMO: O sufixo derivacional –eiro possui, entre seus vários significados, uma interpretação que o caracteriza como agente a partir de bases que são tidas originalmente como substantivais ou participiais. O salto da função relacional para o significado agentivo do sufixo latino –arius nem sempre é bem esclarecida nos trabalhos de semântica histórica e ambos os significados dispõem de certa produtividade ainda hoje no sufixo -eiro. Discutimos nesse artigo os motivos subjacentes a essa dificuldade, com vistas à formulação de pressupostos científicos que fundamentam a reflexão da Morfologia. PALAVRAS-CHAVE: Sufixação, Morfologia Histórica, Semântica Histórica, Agentividade. 1. A gênese do sufixo –arius agentivo O significado agentivo do sufixo –eiro em português, juntamente com seus cognatos nas demais línguas românicas, reflete a continuação de um desenvolvimento supostamente tardio do latim –arius. Inicialmente, -arius era um claro formador de adjetivos. A distinção entre substantivo e adjetivo, apesar de tão importante para as gramáticas ocidentais modernas e mesmo para as teorias linguísticas, porém, apresenta um problema historiográfico, uma vez que nas primeiras propostas de classes de palavras, os termos grego ónoma e o latino nomen englobavam tanto o conceito de substantivos como de adjetivos. Se entendemos o adjetivo como o nome que não ocupa o centro de um sintagma nominal (que é exclusivo do substantivo), teríamos na verdade, não duas classes morfológicas, mas duas classes sintáticas. Desse modo, estrangeiro poderia ser, sintaticamente, tanto um substantivo (um estrangeiro) quanto um adjetivo (um homem estrangeiro), pois, do ponto de vista sintático, seriam respectivamente centro e periferia do sintagma. Algo parecido se dá com as vogais e semivogais: um i só é vogal se ocupa um núcleo silábico (como em vi), mas será uma semivogal se não ocupar (como em pai). Essencialmente trata-se do mesmo som, embora a função difira. Há sons, porém, que apenas ocupam a posição de núcleo, da mesma forma que a mobilidade categorial entre substantivos e adjetivos não é ilimitada. Na primeira etapa, o latim disporia de um –arius que, na verdade, apenas era um recurso que promovia a transposição de uma classe sintática para outra. No português, vários sufixos têm essa mesma função: -al em empresarial, por exemplo, concorre com construções sintáticas em que a preposição funciona como translador (de empresa, da empresa, das empresas). Assim sendo, coquinarius significava “da cozinha” (assim como coquinaris e, mais tardiamente, coquinatorius) e é desse sentido básico que nascerá o agentivo cozinheiro. Aparentemente, o passo é intuitivo: um servo que trabalha na cozinha é um servo de cozinha (por oposição ao servo de jardim, por exemplo). Daí, nada mais simples que referir-se ao servo de cozinha como “servo cozinheiro” ou, simplesmente, “cozinheiro”. A proposta para a passagem é portanto o subentendimento da palavra “servo”. Nesse caso, o substantivo é anulado na fala e o adjetivo ascende, por essa omissão, ao espaço sintático que lhe é conferido ao item apagado. Esse –eiro teria em si o valor relacional que, por meio do subentendimento e posterior omissão do núcleo, se tornaria agentivo. No entanto, o sentido agentivo é uma interpretação e não um resultado dessa omissão: se “cozinheiro” só pode ser um servo, a