Autobiografia e imaginação do escritor- personagem em As pequenas memórias, de José Saramago José Vieira Universidade de Pádua A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la. Gabriel García Márquez, Viver para contá-la. Resumo: O presente texto tem como objetivo perceber de que forma José Saramago cria uma narrativa do seu passado através da memória conjugada com o poder da escrita e da imaginação. Tendo por base a obra As pequenas mMemórias, iremos analisar a construção de uma identidade e de um percurso que evidencia, desde logo, a importância da palavra, do pensamento e da observação como mecanismos do escritor que se vê no espelho do passado e da infância. Palavras-chave: Autobiografia – memória – José Saramago – imaginação – escrita. uando José Saramago publicou as Pequenas memórias, em 2006, o escritor português contava mais de oitenta anos. Depois de ganho o Prémio Nobel da Literatura em 1998, depois de publicados os romances A caverna (2000), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004), e As Intermitências da morte (2005), o autor decide dar à estampa um pequeno livro de registo autobiográfico, retomando algumas crónicas de Deste mundo e do outro (1971) e d’A bagagem do viajante (1986), onde relata os primeiros anos da sua vida até aos 15-16 anos, recuperando, assim, um passado remoto com mais de meio século. Por que razão decide Saramago levar a cabo uma narrativa autobiográfica e também autorreflexiva (não o serão todas as autobiografias?) num momento avançado da sua vida? Estaria o autor de Memorial do Convento, ainda que subconscientemente, a dar razão às palavras de Georges Gusdorf, quando este afirma que a autobiografia é um dos “signes de la transformation de la notion de personne”? (Les écritures du moi 51) Será que a narrativa que Saramago cria em torno da sua infância corresponde à verdade ou, por outro lado, não será ela uma construção que pretende legitimar e justificar a visão do mundo do autor, os seus defeitos, as suas virtudes e o seu conhecimento do género humano? Q