RBRH — Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 16 n.3 - Jul/Set 2011, 95 - 111 95 Estacionariedade das Afluências às Usinas Hidrelétricas Brasileiras Daniel H. Marco Detzel; Marcelo R. Bessa; Claudio A. V. Vallejos; Adriano B. Santos; Luiza S. Thomsen Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento — LACTEC daniel@lactec.org.br Miriam R. M. Mine Departamento de Hidráulica e Saneamento - Universidade Federal do Paraná Márcio L. Bloot Companhia Paranaense de Energia — COPEL João P. Estrócio Companhia Energética de São Paulo Recebido: 05/04/10 - revisado: 05/01/11 — aceito: 26/05/11 RESUMO Alterações nos regimes de afluências para as usinas hidrelétricas do Sistema Interligado Nacional (SIN) têm sido observadas, principalmente a partir do final da década de 1960. Processos antrópicos nas bacias hidrográficas, sobretudo ligadas a alterações no uso do solo, podem ser diretamente apontados como causas para essas alterações. Aparte das origens ou justificativas possíveis, o presente trabalho possui por objetivo uma investigação expedita na condição de estacionariedade de 146 séries de afluências referentes a usinas hidrelétricas do SIN. A análise é feita baseada em seis testes estatísticos de enfoques distintos (t-Student, Cox-Stuart, Wilcoxon, Coeficiente de Correlação de Spearman, Mann-Kendall e F-Snedecor), todos característicos na verificação de tendências em séries temporais. Os resultados são demonstrados em termos de p-valores para todos os casos. Ao final, um método simples de correção da não estacionariedade é sugerido, visando a melhora na representatividade das séries em modelos de planejamento do sistema elétrico brasileiro. Palavras-Chave: INTRODUÇÃO Séries naturais de afluências possuem uma grande importância para o planejamento energético por oferecer subsídios para o cálculo dos volumes disponíveis para geração. No Brasil, essa importân- cia é ainda mais acentuada, visto que 73,6% da gera- ção de energia elétrica provêm de usinas hidrelétri- cas (ANEEL, 2008). No estudo das afluências de um reservatório é de praxe o emprego do Método de Monte Carlo para geração de séries sintéticas, com o objetivo da composição de diferentes cenários de igual probabi- lidade de ocorrência. Considera-se que as informa- ções dadas pelos registros históricos traduzem ape- nas um acontecimento de um processo natural ex- tremamente complexo. São empregados, portanto, modelos estocásticos para a geração de uma multi- plicidade de séries com as mesmas características estatísticas da série observada. Todavia, há um fato complicador para a ge- ração de tais séries. Modelos utilizam informações contidas nos registros históricos para estimação de seus parâmetros. De modo implícito, portanto, as características estatísticas são consideradas invarian- tes no tempo. Essa condição é conhecida como esta- cionariedade e se refere a um estado de equilíbrio das séries. Em modelos que trabalham com séries relativamente curtas (menores do que 30 anos), a premissa da estacionariedade é viável e não repre- senta maiores problemas. Por outro lado, a adoção desta condição quando se trabalha com séries longas se torna imprudente para alguns casos, reduzindo a confiabilidade das séries geradas. Ainda, Queiroga (2003) aponta a adoção estacionariedade como possível fonte de erros e imprecisões em modelos hidrológicos.