NOTAS SOBRE ELEMENTOS DE TEORIA DA NARRATIVA Jaime Ginzburg Publicado em COSSON, Rildo. (Org.). Esse Rio Sem Fim - Ensaios sobre Literatura e suas fronteiras. Pelotas, UFPEL, 2000, p. 113-136. Este texto consiste em um resumo de um curso sobre teoria da narrativa. Seu propósito é examinar três questões centrais. A primeira consiste em compreender por que contamos estórias, e é formulada com uma articulação entre idéias de pensadores vinculados à história, à antropologia cultural e à filosofia. A base da reflexão em teoria da literatura teve de ser buscada nas ciências humanas. A segunda consiste em examinar a diferença entre formas tradicionais e formas modernas de construção narrativa. Nesse tópico, é fundamental a noção de fragmentação. O percurso é encerrado com observações sobre modelos de teoria da narrativa, incluindo tipologias interessadas na imanência formal e reflexões que levam em conta a historicidade da produção literária. O estudo é conduzido intencionalmente de modo a formular duas posições referentes ao modo de compreender a aprendizagem de teoria da narrativa nos cursos de Letras. A primeira consiste em que problemas de teoria da literatura estão associados a questões de interesse das ciências humanas. A segunda, desdobrada da primeira, é de que orientações teóricas presas à descrição da imanência formal são insuficientes para dar conta do conhecimento de obras literárias. Em razão do interesse prioritário na formulação sintética de problemas teóricos, de modo a vincular diferentes questões freqüentemente tratadas em separado, a abrangência do conjunto tem como contrapartida inevitável a brevidade de dedicação a cada questão, que leva à perda de chances de aprofundamento. Em uma área como teoria da narrativa, o aprofundamento é imprescindível, para que o estudo não se restrinja à aplicação monótona e estéril de esquemas viciosos e distorcidos. A sustentação da complexidade dos assuntos exige a leitura das fontes citadas, com relação à qual este artigo se propõe a esboçar um roteiro e servir de motivação. 1. Origem e natureza do ato de contar estórias Em um artigo intitulado No princípio era o ritmo, Nicolau Sevcenko discute o problema da origem das narrativas. Com base em referenciais antropológicos, Sevcenko remete a uma associação arcaica entre a narrativa, a música, o ritual, a dança e o uso de drogas, presente em culturas primitivas. A narrativa, segundo ele, estaria associada ao xamanismo. As narrativas conhecidas e expostas pelo xamã, o feiticeiro de uma tribo, seriam capazes de trazer benefícios purificadores para os membros da tribo, libertando-a do mal. O papel benigno da narrativa tem como sustentação o valor sagrado a ela atribuído. Para o pensamento mítico, associado a forças e comportamentos que atingem os sentidos físicos (música, dança, drogas), a narrativa seria com que um pharmakós, um remédio, e o narrador xamã seria o centralizador das operações purificadoras da tribo. O trabalho do historiador Nicolau Sevcenko pode ser pensado em diálogo