108 Voltar ao índice Diego Giménez UNIVERSIDADE DE COIMBRA Uma taxonomia filosófica para o Livro do Desassossego 1. A poética do fngimento é uma das muitas portas pelas quais se pode entrar na obra pessoana. Ao contextualizar a produção do poeta como resposta contrária à teoria expressiva da criação poética, nos termos que utiliza Aguiar e Silva 1 , Pessoa, assim como Poe, Baudelaire e Mallarmé, para citar alguns nomes, dará importância ao processo de produção do texto poético em contraposição à produção de inspiração romântica: “quando a arte passou de ser tida como criação para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista, porque todos têm sentimentos” (Pessoa 2007, 237). O fngimento para Pessoa não teve o signifcado que comummente lhe damos. O poeta conhecia a língua de Horácio 2 . Como analisa Maria Teresa Schiappa de Azevedo, no texto “À volta do poeta fngidor”, publicado no livro Rostos de Pessoa (Azevedo 2001), em latim, fngir, Fingo,-is,-ere, signifca criar, modelar, representar. Foi o passo do tempo que mudou o signifcado da palavra e lhe deu a conotação negativa que hoje se conhece. Desta forma, pode-se ressigni fcar o sentido do fngimento: “O poeta é um criador/ Cria tão completamente/ Que chega a criar dor/ A dor que deveras sente”. 1 “La reacción contra la teoría de la poesía expresiva – y esta reacción representa un momento de extrema importancia en la evolución de la poética moderna – adquiere fundamento y amplitud con Edgar Poe y Baudelaire” (Silva 1999, 111). 2 A partir do texto de Maria Teresa Schiappa de Azevedo, perscrutaram-se na biblioteca particular da Casa Fernando Pessoa as referências de obras em Latim em posse do escritor. Acharam-se diferentes obras em latim e inglês de Horácio, Tácito, Séneca, Cícero e Ovídio. Destacam-se, entre elas, The Georgics of Virgil, (cota 8-560); A Practical Introduction to Latin Prose, Thomas Kerchever Arnold (cota 8-16); The revised latin primer, de Benjamin Hall Kennedy (cota 8-295); e um Latin Dictionary (cota 8-96). Em The revised latin primer, na página 101 está sublinhada a palavra fingo com sua tradução para feign em inglês e com um acrescento à mão feito por Pessoa, em português: ficção. Destaca-se também a edição bilingue da obra de Virgílio, que está profusamente anotada e demonstra o conhecimento do latim por parte do escritor, que era capaz de traduzir e de marcar o ritmo do poema na língua original. Na página 10 da obra, nos versos 179, acha-se: Grandaevis oppida curae,/ et munire favos, et daedala fingere tecta. Na página 110 do mesmo volume, encontra-se marcada a palavra fingo no vocabulário, traduzida como modelar, dar forma.