Revista Brasileira de Ensino de F´ ısica, vol. 25, no. 3, Setembro, 2003 349 Resenha de Livro Feynman & Gell-Mann: Luzes, Quarks, Ac ¸˜ ao!, por R. Rosenfeld, Odysseus, S ˜ ao Paulo, 2003. Book review: Feymann & Gell-Mann, by R. Rosenfeld V. Pleitez 1 Instituto de F´ ısica Te´ orica, Universidade Estadual Paulista Rua Pamplona, 145, 01405-900, S˜ ao Paulo, SP, Brazil Recebido em 18 de agosto, 2003. Aceito em 22 de agosto, 2003 Recentemente foi lanc ¸ado mais um livro da s´ erie Imor- tais da Ciˆ encia, coordenada por Marcelo Gleiser e publicada pela editora Odysseus de S˜ ao Paulo. Estamos nos referindo a Feynman & Gell-Mann: Luzes, Quarks, Ac ¸˜ ao! (F&G), por R. Rosenfeld [RR03], que ser´ a o tema de nossa resenha. As contribuic ¸˜ oes principais de Feynman ` a f´ ısica tˆ em a ver com a teoria das interac ¸˜ oes eletromagn´ eticas (Luz) e a formulac ¸˜ ao de um princ´ ıpio variacional da mecˆ anica quˆ antica (Ac ¸˜ ao). Por outro lado, talvez a principal contribuic ¸˜ ao de Gell-Mann foi a proposta dos Quarks como constituintes fundamentais da mat´ eria. Posteriormente os quarks foram identificados com os “partons” de Feynman. Assim, o t´ ıtulo do livro j´ e um resumo do que ser´ a tra- tado nas suas p´ aginas. Os trˆ es principais cap´ ıtulos de F&G em t´ ıtulos auto-explicativos: “Feynman”, “Gell-Mann”, e “Feynman e Gell-Mann juntos”. Como dizemos acima, as contribuic ¸˜ oes cient´ ıficas de Feynman, merecidamente destacadas, s˜ ao o princ´ ıpio da ac ¸˜ ao m´ ınima ea soma sobre os caminhos, a formulac ¸˜ ao da Eletrodinˆ amica Quˆ antica, e o modelo de partons dos ucleons. De fato o formalismo da soma sobre os caminhos ´ e didaticamente descrito da p´ agina 27 at´ e a 40 e, na minha opini˜ ao, ´ e a melhor parte do livro (apenas uma observac ¸˜ ao: na discuss˜ ao no texto com relac ¸˜ ao ` a figura da p´ agina 31, as trajet´ orias a) e b) est˜ ao trocadas). A parte dedicada a Gell-Mann ´ e mais curta que a de Feynman, dando ˆ enfase ` a descoberta nos raios c ´ osmicos das chamadas part´ ıculas estranhas pelos f´ ısicos experimentais. Estas part´ ıculas foram chamadas assim porque elas eram produzidas via interac ¸˜ oes fortes mas seus decaimentos eram atrav´ es das interac ¸˜ oes fracas, algo nunca visto antes. Gell- Mann, e independentemente K. Nishijima, explicaram esse fato introduzindo o n ´ umero quˆ antico da estranheza. O autor trata muito rapidamente as outras (muitas) contribuic ¸˜ oes ` a ısica de part´ ıculas elementares de Gell-Mann. Por exem- plo, ficaram de fora trabalhos como o da predic ¸˜ ao de mais um k´ aon neutro ¯ K 0 por Gell-Mann e A. Pais (1955) e a oscilac ¸˜ ao com o K 0 implicando num k´ aon de longa vida K L descoberto em 1956, (menciona-se muito brevemente o caso da Ω - e do m´ eson η 0 ); do grupo de renormalizac ¸˜ ao (a func ¸˜ ao β de Gell-Mann-Low), formalismo que posterior- mente seria muito utilizado na QED (e atualmente no cha- mado modelo padr˜ ao); a teoria V-A (em colaborac ¸˜ ao justa- mente com Feynman) que incorporou a violac ¸˜ ao da simetria por reflex˜ oes nas interac ¸˜ oes fracas (os fenˆ omenos atr´ as do espelho nem sempre s˜ ao iguais aos da frente do espelho); da ´ algebra de correntes; da gerac ¸˜ ao de massa dos neutrinos pelo mecanismo chamado “see-saw”, descoberto tamb´ em por T. Yanagida e outros f´ ısicos, etc; algumas delas devemos reco- nhecer que s˜ ao muito t´ ecnicas mas talvez poderiam ter sido discutidas se o livro fosse um pouco maior. No cap´ ıtulo “Feyman e Gell-Mann juntos”, trata-se pri- meiramente um aspecto da f´ ısica moderna na qual Gell- Mann foi um mestre: o uso das simetrias. De fato, o con- ceito de simetria ´ e bem discutido nesse cap´ ıtulo e ser´ a muito ´ util para que o leitor, que provavelmente ainda n˜ ao conhec ¸e bem o tema, possa ter uma id´ eia clara do que significa a si- metria, aproximada ou exata, de um sistema f´ ısico. Da dis- cuss˜ ao do pr´ oton e do nˆ eutron, passa-se ` a classificac ¸˜ ao dos adrons conhecida como “a via dos oito preceitos” proposto por Gell-Mann, e independentemente pelo f´ ısico israelense Yuval Ne’emann, que fazia seu doutorado no Imperial Col- lege de Londres sob a orientac ¸˜ ao do f´ ısico paquistanˆ es (e prˆ emio Nobel de f´ ısica) Abdus Salam. Considera-se o mo- delo de quarks de Gell-Mann, proposto independentemente pelo f´ ısico americano George Zweig, que na ´ epoca traba- lhava no CERN. Em F&G a parte dos quarks poderia ter sido mais extensa e incluir uma tabela com o resumo dos seus umeros quˆ anticos que complementariam a tabela da agina 101. Nesse cap´ ıtulo Feynman e Gell-Mann se re- encontram quando os artons, propostos por Feynman para explicar os espalhamentos de el´ etrons com n´ ucleons, s˜ ao identificados (depois de v´ arios experimentos) com os quarks de Gell-Mann e Zweig. Em 1972 Gell-Mann e os ısicos Harald Fritzch e H. Leutwyler propuseram a chamada Cromodinˆ amica Quˆ antica ou QCD, pela sigla em inglˆ es. Esta seria poste- riormente comfirmada como um dos componentes do Mo- delo Padr˜ ao (MP) das interac ¸˜ oes fundamentais que inclui uma parte eletrofraca al´ em das interac ¸˜ oes “fortes” da QCD. O MP descreve at´ e o momento todas as observac ¸˜ oes (e s˜ ao muitas!) obtidas no laborat´ orio com excec ¸˜ ao da massa dos neutrinos necess´ aria para explicar efeitos observados em neutrinos vindos do Sol e da atmosfera. Como o resto da s´ erie, F&G foi escrito tendo em mente adolescentes. No entanto esta resenha est´ a dirigida aos pro- fessores deles. O problema comum aos livros de texto ´ e o da mistifi- cac ¸˜ ao da ciˆ encia e dos cientistas. Parece que as descober- tas s˜ ao feitas por pessoas sobre-humanas e n˜ ao se conside- 1 E-mail address: vicente@ift.unesp.br