ANGELO SOARES SE EU PUDESSE NÃO SER CAIXA DE SUPERMERCADO...' ' Essa pesquisa foi possível graças ao apoio financeiro do CNPq. Agradeço a Helena Hirata, Maria De Koninck, Romaine Malenfant e Lucie Mercier pelas críticas e comentários feitos em versões anteriores deste artigo. 'Ver por exemplo as análises de Cristina Bruschini sobre essa questão em:BRUSCHINI, C.. Tendências da Força de Trabalho Feminina Brasileira nos Anos Setenta e Oitenta: algumas comparações regionais. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1989. BRUSCHINI, C.. Trabalho Feminino: trajetória de um tema, perspectivas para o futuro, Estudos Feministas, vol. 2(3), 1994, 17- 32. Não é bem uma escolha. (...) Eu estava precisando trabalhar, surgiu a oportunidade aqui, daí eu entrei como caixa (...) Se eu pudesse escolher, eu escolheria como carrei- ra, eu gostaria muito, se eu tivesse condições, de ser médica, mas, infelizmente não dá né? A gente tem que ir tentando aos poucos, por enquanto como operadora de caixa. (Caixa de supermercado brasileira, 18 anos) Meus sonhos são outros (Zélia Duncan) Nas últimas duas décadas temos observado uma participação crescente das mulheres no mercado de trabalho, seja no Brasil, no Canadá ou em outros países ocidentais. Entretanto, apesar de todas as lutas pela igualdade nos mundos do trabalho, quando analisamos as estatísticas ainda encontramos uma grande segrega- ção ocupacional. No Canadá, por exemplo, 53% das trabalhadoras encontram-se concentradas em apenas 20 profissões. No Brasil, encontramos uma mesma tendência 2 . Essas profissões, onde encontramos uma alta taxa de participação da mão-de-obra feminina, são denominadas por algumas feministas americanas como profissões de "colarinho rosa": secretárias, enfer- meiras, professoras de primeiro e segundo graus, caixas de supermercados, de banco, garçonetes etc. Geral- mente, esses trabalhos, que supostamente exigiriam pouca ou nenhuma qualificação, possuem um baixo prestígio, são mal remunerados e oferecem uma organi- zação do trabalho rígida, de condições de execução cada vez mais precárias.