Revista Desassossego 7 Junho/2012 177 AO ENTARDECER DA VIDA Francisco Neto Pereira Pinto 1 Era uma tarde qualquer de agosto, sol miseravelmente quente e o vento soprava um vapor seco áspero e as folhas das árvores no quintal consideravelmente grande para uma cidade de porte médio, considerando a realidade demográfica da região Norte, e desta, o Norte Tocantinense. Araguaína é uma das mais importantes cidades deste Estado, o que coloca o moço de sessenta como um cidadão de considerável condição, pois tem uma casa mediana e um quintal onde o sol de agosto pode invadir e o vento fazer rodopio com o que cai das muitas árvores que trazem medida de sombra e lá, debaixo de uma frondosa mangueira, põe uma cadeira o moço e se põe a terminar a leitura do romance que começara a ler ainda pela manhã. Começou a trabalhar cedo na vida e agora a aposentadoria lhe permite ser indiferente ao tempo e viver assim, de fazer nada, de ociosidade que de tão ociosa lhe promete ainda tirar a sanidade, que já não se pode dizer que é muita. Ao menos os livros para entretê-lo, e ainda é o que lhe sustenta a vida, senão já teria morrido lá, sozinho, na casa com quarto e cama de casal que desde sempre jamais se acostumou à presença costumeira de um corpo a mais; aliás, de vez em quanto aparecia um, mas sempre estranho, volta umas poucas vezes e desaparece para, então, retornar outro estranho para, então, comparecer mais algumas poucas vezes para, então...e é sempre assim. Casa com cozinha, também testemunha de muitos pratos de causarem delírios estomacais, frequentada sempre depois de esgotamentos e delírios que requerem os corpos recomporem-se e aí então é saciedade pós-saciedade; duplamente. Ah! velhos tempos, suspira o moço, agora saciado de tanta solidão. Meu Deus, sessenta, pensa e assusta-se, o corpo estremece, como se estivesse acordando para uma dura realidade que a mente ainda impõe barreiras ao reconhecimento e prefere relegar ao inconsciente. Estratégia de sobrevivência? Inferno, esse sou eu! Foi tomado de uma comoção e parecia que agora as vísceras não cabiam mais dentro de si e urgia por uma expulsão pelos poros por todo o corpo, mas isso não era outra coisa senão uma aguda tomada de consciência de que estava agora ali sem ninguém aos sessenta sem alguém no mundo para quem pudesse confessar que tinha medo de morrer sozinho e de que tinha doenças e que precisa ir ao médico constantemente e também fazia tratamento para depressão e os remédios o deixava sonolento e poderia uma hora dessas dormir e não 1 Mestrando em Ensino de Língua e Literatura pelo Programa de Pós-Graduação em Letras PPGL, Mestrado em Ensino de Língua e Literatura, Universidade Federal do Tocantins UFT, campus de Araguaína.