168 “Os dias em que a «educação no museu» era encarada como uma festa de crianças arrastadas ao longo das vitrinas há muito que terminaram. «Educação no museu» é um aspecto muito mais complexo do trabalho museológico e está rapidamente a tornar-se também no mais necessário”. Eilean Hooper-Greenhill, The Educational Role of the Museum, 1994 (tradução livre) Um jovem percorre as salas expositivas admirando as obras de Van Gogh. Pára. Concentra-se numa pintura e deixa voar a imaginação. Subitamente é sugado para o interior daquela. De repente, passa a habitar o universo pictural da obra e viaja até ao tempo em que esta foi criada. Conversa com o autor que lhe exprime o arrebatamento provocado pela paisagem, caminha por entre os campos de feno, pelas ruas sinuosamente vincadas a óleo e por entre os dourados campos de trigo sob a sombra dos corvos negros ... Habitar fisicamente uma pintura, eis a derradeira ilusão que o cineasta Akira Kurosawa torna exequível, ainda que em sonho e no grande ecrã, no seu filme Sonhos (1990), mais concretamente no quinto conto entitulado Corvos. Com ele o cinema amplia o nosso olhar sobre a pintura no sentido de ultrapassarmos a barreira bidimensional do quadro em direcção à real dimensão da imagem. Podemos afirmar ter sido também este o objectivo principal da criação do Serviço Educativo (SE) da Fundação Centro Cultural de Belém/Centro de Exposições em 1998 – ser um espaço e um tempo de descoberta, emoção, encontro, comunicação e sonho. Ser um departamento de animação pedagó- gica e cultural que dinamizasse e promovesse a própria instituição e, simultaneamente, fosse capaz de contribuir para a formação estética e cultural da comunidade no qual está inserido e que o procura, gerando uma nova atitude face à arte e à criação. Subjacente a toda a nossa acção educativa encontra- -se a vontade em derrubar a ideia ainda generalizada do museu/centro de arte ser um espaço monótono, enfadonho, silencioso, imutável e pouco atractivo (ideia declaradamente manifesta na expressão depreciativa “isto parece um museu”), bem como a consciência da missão educativa que desempenha, a par da de preservar a memória e o património cultural da humanidade. Actualmente, a imagem de um espaço museal vazio em que as obras não têm qualquer interlocutor é quase tão inverosímil como a ideia de habitar fisicamente a pintura. E se esta é uma verdade para todos os museus, é sublinhada nos espaços de arte moderna e contemporânea, dada a natureza e o conceito dos objectos e instalações que convocam a vivência do sujeito no espaço da obra. A arte contemporânea apela à experimentação, às sensações e à pluralidade de interpretações. Ela completa-se com o interlocutor. Pela procura de um novo olhar. Serviço Educativo do Centro Cultural de Belém. Uma experiência entre 1998 e 2005 BÁRBARA COUTINHO * [ barbara.coutinho@ccb.pt ] * Serviço Educativo do Centro Cultural de Belém. | N. ° 5 | 2006 (168-174)