Revista Iberoamericana , Vol. LXXXVIII, Núm. 278, Enero-Marzo 2022, 187-206 O TEXTO E A FITA: TRADUÇÃO E TRAIÇÃO EM CORAÇÕES SUJOS (2001 E 2011) por Clara Carolyne FaChini Zanirato The United States Military Academy at West Point A fnalidade deste artigo é destacar como se deu a transposição da narrativa para o cinema na adaptação do romance Corações sujos (2001), de Fernando Morais, para o flme com o mesmo nome Corações sujos (2011), dirigido por Vicente Amorin. Enfatizarei que há uma traição entre narrativa e adaptação fílmica. 1 Proponho três níveis de traição/ tradução entre romance e fta: a) o diretor “trai” o romance quando apresenta Miyuki para contar à audiência a história de seu marido, b) o personagem Aoki “trai” a colônia japonesa ao traduzir para os policiais e c) a criança Akemi também é uma “traidora” da pátria ao ajudar os policiais. Por traírem o Japão, todos os personagens sofrem perdas violentas. Primeiramente, foco em como se deu no romance documental e, posteriormente, comparando com sua transposição/ tradução para o cinema. Para realizar tal análise, pretendo ter como texto fundamental A Companion to Literature and Film, e “Beyond Fidelity: the Dialogics of Adaptation”, ambos de Robert Stam e Alessandra Raengo, e Virtual Orientalism in Brazilian Culture, de Edward King. livro e Filme Ambas obras de Fernando Morais e Vicente Amorin constituem-se como legados importantes da história de imigração japonesa dentro do Brasil. Como a escritora nikkei peruana Doris Moromisato explica em uma entrevista pessoal dada a mim em novembro de 2019: “o asiático dentro da cultura latino americana sempre ocupou uma posição marginal, apesar de não ser um grupo marginalizado”. Ao entrarmos em contato com o livro e com o flme, notamos uma faceta histórica do país que não é comumente 1 No romance documental, Fernando Morais junta vários dados e informações técnicas que se misturam com a elaboração de poucas narrativas sobre casos que foram registrados pela imprensa. Assim, Morais elabora histórias fccionais (baseadas em fatos reais) que são perpetradas por informações estatísticas. O flme foca em somente uma, ou duas, dessas narrativas fccionais, deixando de lado as estatísticas para compor uma “história” de fcção.