Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (378-387) PRÁTICAS DISCURSIVAS EM TORNO DA LOUCURA Cristine Görski SEVERO (Universidade Federal de Santa Catarina – PG) ABSTRACT: The aim of this paper is to discuss the process of maddness constituition - based on a foulcautian approach (of power and knowledge) -, since de end of XIX century, in discoursive practices such as: theory of heredity, psychoanalysis, systemic therapy and neuroscience. KEYWORDS: madness; power; discoursive practices. 0. Introdução O objetivo deste trabalho, a partir de uma abordagem foucaultiana da relação entre saber e poder, é discutir o processo de constituição da loucura (tida como doença mental), a partir do final do século XIX, em práticas discursivas 1 que envolvem: teoria da degenerescência (hereditariedade); psicanálise; terapia sistêmica; neurociência. Os dois primeiros a partir do final do século XIX e os dois últimos a partir dos anos 50. Considero que mesmo os discursos que tratam de uma certa humanização, ao lidarem com a loucura menos como doença e mais como disfunção (especialmente a terapia sistêmica e algumas questões relativas à neurociência), são atravessados por poder-prazer ao continuarem a colocar a loucura como objeto para a construção de um saber. Po fim, discuto, tendo em vista uma leitura foucaultiana, o processo de formação do discurso (e da atuação) anti-manicomial (que rege a postura moderna frente à loucura) a partir das práticas discursivas mencionadas anteriormente e concluo levantando questões sobre a possibilidade (ou não) de relações (de verdade) com a “loucura”, que não atravessadas por uma vontade de saber (Foucault). 1. Hereditariedade e psicanálise A família, como alvo do poder, ocupa um lugar central nos discursos científicos acerca da loucura. Dessa maneira, o saber sobre o doente mental circula em dois discursos diferenciados: o discurso do gen “perturbado” (hereditariedade); e o discurso da relação mãe/filho na constituição do louco. Estes são discursos que se constituem no momento em que o olhar médico é lançado para o que há de menor dentro do corpo biológico (o gen) e os ouvidos estão prontos para decifrar a verdade do desejo da mãe e do delírio do filho. 1.1 Teoria da degenerescência (hereditariedade) 2 A medicina do século XIX buscava comprovações materiais para os fenômenos que estudava, e isso implicava que o sintoma deveria deixar uma marca no corpo biológico, alvo do olhar de uma medicina que se esforçava para incluir-se no campo das ciências exatas 3 . Daí, dentro de uma perspectiva organicista, o grande louvor à anatomia patológica, que permitia ao médico prever uma regularidade em termos de sintomatologia. Contudo, a loucura era uma doença que não deixava marcas anatomopatológicas 4 , tornando-se necessário uma busca de marcas concretas para justificar a loucura como doença. É aí que o interrogatório exerce uma importância fundamental na busca de dados sobre a loucura do indivíduo, pois “se a marca de sua realidade não se inscrevia no corpo, deveria aparecer sob a 1 As práticas discursivas são entendidas, para fins do trabalho, como “recorte de um campo de projetos, pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito do conhecimento, pela fixação de normas para a elaboração de conceitos e teorias. Cada uma delas supõe, então, um jogo de prescrições que determinam exclusões e escolhas” (Foucault, 1997: 11). 2 A partir do fim nos anos 80 os distúrbios mentais passaram a fazer parte do rol das doenças pesquisadas “através do uso de técnicas de genética molecular a fim de se encontrar, entre seus fatores causais, o envolvimento de gens” (Graeff e Brandão, 1996:54) 3 As doenças mentais puderam ser classificadas como doença do cérebro a partir do século XIX, quando Esquirol “descobriu a chamada paralisia progressiva, conhecida pelos leigos como “enfraquecimento cerebral”, cujo quadro clínico encontra-se intimamente relacionado a uma atrofia crônica do tecido cerebral, de origem inflamatória” (Jung, 1986:144). No final do século a descoberta no campo da anatomia, feita por Wernicke, da relação entre a fala e o lobo temporal do cérebro, só contribuiu imensamente para as esperanças científicas de que “cada característica e atividade psíquicas descobriria sua causa num lugarzinho da massa cinzenta cortical” (op cit.: 144). Além deles, um outro psiquiatra (Meynert) contribuiu imensamente no campo científico para a descoberta das causas das psicoses, que se encontrava na “alteração no supremento sangüíneo do córtex” (op cit.: 144). 4 A etiologia da esquizofrenia não era seguramente clara em termos orgânicos, pois não havia comprovação da “existência de lesões específicas das células cerebrais” (Jung, 1986: 219)