399 Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, 96(4):399-405, 30 de dezembro de 2006 Produtividade de peixes em um riacho costeiro da bacia do Leste... Produtividade de peixes em um riacho costeiro da bacia do Leste, Rio de Janeiro, Brasil Sérgio Andreas Schubart 1 & Rosana Mazzoni 2 ABSTRACT. Fish production in a coastal stream from Bacia do Leste, Rio de Janeiro, Brazil. Production rates (P) and biomass (B) of two stream-dwelling fish species from seven sites in the Ubatiba drainage were studied during two years with contrasting rainfall indexes. In order to test the potential correlation between P, B and the Environmental Heterogeneity Index (EHI) of each site, simple correlation analyses were applied. The analyses did not show significant differences (p<0.01). Spatial pattern of P indicated that production rates of both species are highly homogeneous in the studied sites but are low when compared with other stream-dwelling fishes from the Holartic region. Mean P and B values of Astyanax hastatus Myers, 1928 were P rainy = 14.0 kg.ha -1 .year -1 , P dry = 24.4 kg.ha -1 .year -1 and B rainy = 7.3 kg.ha -1 , B dry = 12.2 kg.ha -1 , with significant higher values during the dry year (t (B)= 2.41; p = 0.03 e t (P)= 2.28; p = 0.04). In spite of presenting a tendency similar to that found for A. hastatus, mean P and B values for Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimardi, 1824) did not show significant differences (t (B) = 1.5; p = 0.16 and t (P) = 1.75; p = 0.11) between years: P rainy = 25.2 kg.ha -1 .year -1 , P dry = 53.2 kg.ha -1 .year -1 and B rainy = 16.6 kg.ha -1 , B dry = 29.7 kg.ha -1 . Reduction of P in the rainy year were 57% and 47% for A. hastatus and G. brasiliensis, respectively. Mean values of P/B decreased among larger individuals of both species. KEYWORDS. Secondary production, turnover rates, fish, stream 1. Programa de Pós-Graduação em Biologia–Ecologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 2. Laboratório de Ecologia de Peixes, Departamento de Ecologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Av. São Francisco Xavier 524, 20550-013 Rio de Janeiro, RJ. (mazzoni@uerj.br) RESUMO. As taxas de produção (P) e biomassa (B) de duas espécies de peixes de riacho foram estudadas em sete localidades da bacia de drenagem do rio Ubatiba, considerando-se dois ciclos anuais com índices de pluviosidade contrastantes. Com o objetivo de testar correlações potenciais entre P, B e o Índice de Heterogeneidade Ambiental (IHA) de cada localidade foram utilizadas correlações simples, que não revelaram diferenças significativas (p<0,01). O padrão espacial de P indicou que as taxas de produção de ambas as espécies foram marcadamente homogêneas nas localidades de estudo, mas foram reduzidas quando comparadas com as espécies de peixes de riacho da região Holártica. Os valores médios de P e B de Astyanax hastatus Myers, 1928 foram: P chuvoso = 14,0 kg.ha -1 .ano -1 , P seco = 24,4 kg.ha -1 .ano -1 e B chuvoso = 7,3 kg.ha -1 , B seco = 12,2 kg.ha -1 , com valores significativamente superiores durante o ano seco (t (B)= 2,41; p = 0,03 e t (P)= 2,28; p = 0,04). Apesar de ter apresentado tendência semelhante à registrada para A. hastatus, os valores de P e B de Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimardi, 1824) não se mostraram significativamente diferentes (t (B) = 1,5; p = 0,16 e t (P) = 1,75; p = 0,11) entre os anos de estudo, sendo P chuvoso = 25,2 kg.ha -1 .ano -1 , P seco = 53,2 kg.ha -1 .ano -1 e B chuvoso = 16,6 kg.ha -1 , B seco = 29,7 kg.ha -1 . As reduções de P durante o ano de maior pluviosidade foram de 57% e 47% para A. hastatus e G. brasiliensis , respectivamente. Os valores médios da relação P/B mostraram tendência a redução em relação ao aumento de tamanho dos indivíduos de ambas as espécies. PALAVRAS-CHAVE. Produção secundária, taxa de renovação, peixes, riacho A despeito dos inúmeros trabalhos existentes sobre produtividade animal de regiões de clima temperado, o termo “produtividade” ainda é utilizado de forma ambígua (MANN & PENCZAK, 1986). THIENEMANN (1931) apresenta uma ampla análise crítica sobre o uso do termo e define “produção” como a quantidade de matéria orgânica elaborada em uma determinada área ou comunidade biológica e “produtividade” como a taxa em que a matéria orgânica é acumulada em uma determinada unidade de tempo. Uma outra definição para o termo produção (=produtividade) considera a quantidade total de tecido elaborado por uma população durante um certo intervalo de tempo, em uma localidade definida, incluindo o que é produzido por indivíduos que não sobreviveram até o final deste intervalo de tempo (IVLEV, 1966). Este é o conceito que tem sido mais utilizado na literatura (e.g. HOPKINS, 1971; MANN & PENCZAK, 1986; MAZZONI, 1999; MAZZONI et al., 2000) e será utilizado neste trabalho. A produção de peixes tem sido objeto de diversos estudos em lagos (RYDER, 1965; DIANA, 1983; KELSO, 1988; RANDAL et al., 1995) e riachos (HOPKINS, 1971; PENCZAK, 1981; NEVES & PARDUE, 1983; WATERS, 1983; WHITWORTH & STRANGE, 1983; PENCZAK et al., 1985; MANN & PENCZAK, 1986; O’HARA & PENCZAK, 1987; NEWMAN & WATERS, 1989; PENCZAK, 1992) de regiões temperadas, porém são poucos os estudos realizados em outras regiões (BISHOP, 1973; KAPETSKY, 1974; WATSON & BALON, 1984; PENCZAK & LASSO, 1991). Para peixes tropicais brasileiros, apenas dois trabalhos estão disponíveis na literatura (i.e. AGOSTINHO & PENCZAK, 1995; MAZZONI & LOBÓN-CERVIÁ, 2000), apesar de que estudos dessa natureza são fundamentais para se incluir os padrões e processos que ocorrem em riachos neotropicais em um contexto mais amplo da teoria ecológica vigente, a qual, até o momento, está amplamente baseada em padrões observados em sistemas naturais do hemisfério norte. De acordo com os dados disponíveis na literatura, as taxas de produção variam entre ambientes lênticos e lóticos, entre regiões geográficas e entre espécies. Valores de produtividade entre 50 e 750 kg/ha/ano foram registrados em riachos do Mediterrâneo (LOBÓN-CERVIÁ & PENCZAK, 1984; PENCZAK & MOLINSKI, 1984); valores