Revista Geografa e Pesquisa, Ourinhos, v. 13, n. 2 p. 6-7, 2019 6 6 http://dx.doi.org/10.22491/1806-8553.v.13n2a311 Um olhar panorâmico para o capitalismo de contradições na obra Dezessete contradições e o fm do capitalismo, de David Harvey Review of the book Dezessete contradições e o fm do capitalismo Bruno Leonardo S. BarceLLa a a Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografa da Unesp de Presidente Prudente. E-mail: blbarcella@gmail.com HARVEY, D. Dezessete contradições e o fm do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016. Dezessete contradições e o fm do capitalismo foi escrito pelo renomado geógrafo britânico David Harvey, atualmente professor de pós-graduação da Universidade de Nova York (NYU). Foi publicado originalmente em 2014 pela editora Oxford University Press e foi traduzido para a língua portuguesa em 2016, por Rogério Bettoni, em edição publicada pela editora Boitempo. Harvey examina o que ele denomina de contradições internas do processo de reprodução do capital. Segundo o autor, essas contradições internas dão coerência ao modo de produção capitalista. Ao mesmo tempo, porém, são responsáveis pelo “pontapé” inicial não somente da crise econômica mais recente, observada em escala interna- cional, mas das crises econômicas cíclicas que ocorrem em diferentes pontos do mundo. O autor constrói uma análise sistêmica. Constata que, mesmo sendo possível observar que algumas formas de manifestações das contradições do capital são evidentes desde a época em que Marx escreveu, principalmente, O Capital e Grundrisse, elas projetam e conformam até hoje a materialidade da vida sob a “égide do capital”. O livro tem três partes, além do prólogo, da introdução e da conclusão, e cada uma destas procura construir argumentos que comprovem a existência de 17 contradições. Mais do que isto, o autor busca explicá-las de forma a mostrar suas conexões com o surgimento das crises. O autor entende as crises fundamentais para o rearranjo das contradições do atual sistema de acumulação pautado pelo crescente domínio das lógicas fnanceiras. Na primeira parte, intitulada “As contradições fundamentais”, o autor aborda as sete primeiras contradições, entendidas como fundamentais para o funcionamento do processo de reprodução do capital. Sem elas, o sistema de acumulação, cujos princípios são observáveis “em qualquer época ou lugar”, não pode se reproduzir. O autor dá os seguintes nomes a essas contradições: 1. “valor de uso e valor de troca”; 2. “o valor social do trabalho”; 3. “propriedade privada e Estado capitalista”; 4. “apropriação privada e riqueza comum”; 5. “capital e trabalho”; 6. “capital como processo ou como coisa?”; 7. “a unidade contraditória entre produção e a realização”. A segunda parte do livro, “As contradições mutáveis”, aborda outras sete contradições envolvendo a dinâmica do capital na evolução histórica e geográfca. De acordo com o autor, elas, por sua vez, correspondem às que não são estáveis ou permanentes, mudando sempre de lugar. São contradições relativas a outras condicionantes. São elas: 1. “tecnologia, trabalho e descartabilidade humana”; 2. “divisões do trabalho”; 3. “monopólio e competição: centra- lização e descentralização”; 4. “desenvolvimento geográfcos desiguais e produção do espaço”; 5. “disparidades de renda e riqueza”; 6. “reprodução social”; 7. “liberdade e dominação”. Nesta segunda parte, a exposição dos argumentos do autor ganha complexidade, à medida em que passa a debater as contradições consideradas mutáveis. Ele abre as contradições do capital para a interação com as do capitalismo e avalia as suas formas no tempo e no espaço. Com essa opção de construção analítica, o autor transborda os debates comuns de análises generalizantes e homogeneizantes. Com recursos típicos de análises geográfcas, nesta segunda parte o autor considera o papel crucial e central das articulações de escalas que envolvem o processo de reprodução do capital. Dá justo destaque ao desenvolvimento