1 Marx, Epicuro, Tempo Quinta-feira, 26 de maio de 2022 Linha de Pesquisa, Unicamp, Pós em História Cultural, Gênero, Subjetividades e Cultura Material Pedro Paulo A. Funari A tese de doutoramento de Karl Marx (1818-1883), orientada por Bruno Bauer (1809-1882), foi defendida em 1841 em Jena, Turíngia, antiga RDA, universidade Luterana, abrigo de política radical. Marx e Bauer declaravam-se ateístas. Marx, neto de rabinos, foi batizado evangélico (luterano, 1824) e nessa igreja casou-se (1843), no contexto da ab-rogação da emancipação dos judeus na região do rio Reno, à época anterior, das conquistas napoleônicas. De família de muitos recursos, depois de estudo em casa, até 1830, seguiu para o Gymnasium zu Trier (Escola Secundária de Estudos Clássicos), onde pôde aprofundar seus conhecimentos de línguas e literaturas clássicas, em grego e latim. Em 1835, passou a estudar Filosofia na Universidade de Bonn, passando ao Direito, em Berlin (1836), por pressão paterna. Para entender sua monografia sobre Demócrito e Epicuro, essas informações bastam. A tese, foi intitulada “A Diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro”, dedicada ao sogro Ludwig von Westphalen, nobre liberal da Prússia, com família nobiliárquica em outras partes da Europa. Como Demócrito (460-370 a.C.) e Epicuro (341-270 a.C.) são conhecidos por fontes posteriores, em particular, por Epicuro, exaltado por Marx, conhecido por meio Diógenes Laércio (180-240), mas pela sua leitura pelo latino Lucrécio (99-55 a.C.) em seu Da Natureza das Coisas. A tese, em si, é muito erudita e abstrusa, como não poderia deixar de ser. Filosofia a mais abstrata, como tinha que ser. Mas, como também se esperaria de Marx, ligada mais ao presente do que ao passado. A tese central consistia em usar os antigos, para criticar o presente. Os antigos podiam ser materialistas propugnadores da possibilidade, frente à inevitabilidade. O mundo poderia ser explicado pelas ideias, ou as ideias pelo mundo e Marx, como outros, colocava-se nesta perspectiva. O segundo aspecto refere-se ao futuro, também: tudo está determinado, ou a ser feito pelas pessoas. Segundo concepções à época e anteriores, o devir estava determinado: escatologia, início, meio e fim, determinados. No Judaísmo escatológico, no Cristianismo, sempre