Aniki vol.5, n.º 1 (2018): 5-22 | ISSN 2183-1750 doi:10.14591/aniki.v5n1.324 O universo de coisas de Apichatpong Weerasethakul: A fenomenologia para além da relação entre o humano e o mundo Julio Bezerra 1 Introdução Uma sala de cinema. Alguns, poucos, espectadores. Deduzimos que entre eles estão Itt e Jen, nossos protagonistas. É possível ver apenas a parte de trás de suas cabeças e a tela à frente. O trailer de um “pi- cante” filme de terror sobrenatural está sendo exibido. Quando termina, o público fica de pé para o hino nacional tailandês, o que antecede a atração principal – como é exigido por lei. No entanto, em vez de música, só há silêncio. Experimentamos em seguida uma montagem em tableaux. A imagem em contre-plongée de um venti- lador de teto que vibra cores, azul, roxo e vermelho. Nós o ouvimos. Seu barulho cria um ritmo sereno; uma espécie de constante estado de tranquilidade é construído e irá perdurar por todo o filme. Corte. Vemos agora dois planos de pessoas dormindo no que parece ser a enfermaria de um humilde hospital. Há postes ao lado de suas camas. Eles mudam de cor e seu brilho ilumina o quadro. A floresta está lá fora, através das janelas. Está escuro. Corte. Um poste de luz nos permite ver um grupo de pessoas desabrigadas, dormindo ao lado de um mural de Sarit Thanarat (um soldado que comandou um golpe em 1957 e manteve-se primeiro-ministro até morrer em 1963). Corte. Um plano longo e aberto de um parque em toda sua profundi- dade de campo. Um reservatório ocupa o centro do quadro. Do lado esquerdo, um homem recolhe o lixo. Um casal está sentado, conver- sando. As pessoas andam em torno do quadro, a uma certa distância. Corte. Um homem dorme em um ponto de ônibus com um anúncio do “Estúdio de casamento da UE” ao fundo. Bicicletas e carros passam. Corte. Ao voltarmos ao shopping e seus néons, um Itt inconsciente está sendo carregado para fora da sala de cinema, atra- vés de um labirinto de escadas rolantes. Nós o acompanhamos até ele deixar o quadro. Um longo fade nos leva novamente à enfermaria, onde um grupo de homens dormem, banhados pelo brilho sinistro de suas máquinas de sonho. Esta é uma das sequências mais elogiadas de Cemitério do es- plendor (Rak ti Khon Kaen, 2015), dirigido pelo cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul. Após mais de uma década depurando, 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, CEP 22290-240, Rio de Janeiro, Brasil.