Publicado no Estado da Arte em 02/06/2022.] Os Tradicionalistas vão ao paraíso Rogério P. Severo No livro Guerra pela Eternidade : o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista (Editora Unicamp, 2020), o etnógrafo americano Benjamin Teitelbaum mapeou as conexões surpreendentes entre os pensamentos de Steve Bannon, Alexander Dugin e Olavo de Carvalho. Os três viram-se subitamente alçados aos círculos mais influentes dos governos de seus respectivos países nos EUA, Rússia e Brasil. Nesse trabalho de jornalismo investigativo, Teitelbaum oferece um relato do que descobriu entrevistando pessoalmente essas três personalidades e lendo uma parte do material escrito por elas e por seus mentores intelectuais. O elo que os liga é o chamado pensamento “Tradicionalista”, que tem como referências principais as obras do francês René Guénon (1866-1951) e o do italiano Julius Evola (1898-1974). O livro de Teitelbaum contém elementos valiosos para se entender algumas facetas dessa vertente da extrema-direita que ascendeu ao poder pela primeira vez nos últimos anos e à qual as categorias usuais de conservador e liberal não se aplicam adequadamente. Teitelbaum foi levado a essa temática em razão de seu trabalho em etnomusicologia. Uma pesquisa que conduziu teve como objeto os apreciadores de um gênero musical pouco conhecido do grande público, chamado “neofolk”, que foi precedido nas décadas de 1980 e 1990 pelo “apocalyptic folk”. Esse estilo musical é bastante apreciado por jovens da extrema- direita europeia e norte-americana. Nas entrevistas que realizou, descobriu um pequeno subgrupo que se identifica como “Tradicionalista”. Estamos falando da franja da franja da extrema-direita, alguns dos quais ligados aos movimentos supremacistas brancos. Pouca gente ouviu falar dessas pessoas, em razão do seu número reduzido e da natureza por vezes esotérica de sua filosofia. Segundo Teitelbaum, as obras de Guénon e Evola que servem de referência para essa turma retomam uma antiga crença hindu, conforme a qual a humanidade passa por ciclos ou eras históricas, começando por uma idade de ouro que degenera para uma idade de prata, depois bronze e, por fim, ferro, a Kali Yuga, que é nossa era atual. Ao contrário da filosofia iluminista moderna, que consagrou a ideia de progresso, os Tradicionalistas acreditam numa inevitável decadência. No entanto, nessa filosofia o tempo histórico é cíclico e não linear. Ao final de uma Kali Yuga, o ciclo recomeça. Das ruínas dessa nossa era de ferro, dizem, surgirá uma nova era dourada. Nem todos são assim otimistas, no entanto! É uma filosofia um tantinho lúgubre, digamos. Coerentes com seu fatalismo, Guénon e Evola não viam muito valor na participação política. Evola chegou a apoiar os fascistas na Itália no