Revisla Crrtlca de CIAncias Socials N.· 33 Oulubro 1991 MOISES DE LEMOS MARTINS Universidade do Minho o Discurso da Identidade e 0 Modo de Enunciar a Periferia Somos um pals "excessivamen- te uno", e sofremos por isso de um problema de "hiper-identidade" {E. Tendo em conta 0 nosso perfil cul- tural, que sentido tem 0 discurso da sabendo n6s que os conceitos de centro e periferia, aqui analogicamente encenados como um teatro de "rois" e de "fous du roi", sao lugares de do discurso da identidade e da autono- mia regional? Assim introduzimos a sociol6gica sobre 0 modo de enun- ciar a periferia - um percurso que nos fez remontar a Salazar e ao salazarismo. A nossa perspectiva de enfoque • animada por uma suspeigao inicial, langada contra 0 fliustico discurso da regionalizagao. Fliustico porque, depois da falancia do mo- delo. urbano e industrial de desenvolvimento, e 0 discurso da regionalizagao que aponta 0 novo territ6rio da crenga, o territ6rio para onde os poderes publicos remetem as esperangas sociais (1). Enunciando-se, com efeito, como uma "panaceia milagrosa" (Gaspar, 1982: 96-97), e va-Io abater-se sobre os estigmas de sse sofrido lugar de pri- vagao, usurpagao, devastagao, como sempre tem side figu- rada a periferia; e va-Io enfim aplanar as montanhas que a separam do centro (2). (') Dado 0 descradito do modelo tradicional de desenvolvimento, impe- rioso se tornava que as esperan<;:as sociais encontrassem um novo lugar de reden<;:ao. Vilfredo Pareto dizia que "apenas a fa motiva forte mente a ac<;:ao dos homens" (pareto, 1966, I. 1: 122). Mas ja Pierre Janet insistia neste aspecto: "a cren<;:a mais nao a que uma promessa de aC9ao: crer a agir; dizer que acreditamos em alguma coisa a dlzer: faremos alguma coisa" (P. Janet, apud Certeau, 1981: 8). Com efeito, a cren9a a antes de mais nada "aquilo que faz an dar", a partir del a esta-se pronto a agir - a obede- cer, por exemplo. . \ 2) Vejam-se neste sentido as Actas do Seminario que se realizou ria Covi h1i. em Setembro de 1988, versando 0 tema "Intenoridade e Desen- 1. 0 processo de da Identldade "II n'y a point de meilleur r61e aupres des grands que eelui de fou. Longtemps iI y a eu Ie fou du roi en titre, en aueun, iI n'y a eu en titre Ie sage du Roi. Moi je sU/s Ie fou de Bertin et de beaueoup d'autres, Ie v6tre dans ee moment, ou vous Ie mien. Celui qui serait sage n'aurait point de fou. Ce/ui done qui a un fou n'est pas sage; s'i1 n'est pas sage iI est fou; et fut-il Ie roi, Ie fou de son fou. Au reste, souvenez-vous que dans un sujet aussi variable que les : 203