LETRAS CLÁSSICAS, n. 4, p. 33-50, 2000. – 33 – ELOGIO DE GÓRGIAS ADMA MUHANA* Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas RESUMO: Tem este texto por objetivo evidenciar relações que Aristóteles estabelece entre a poesia, a retórica e a sofística, principalmente na Poética, na Retórica e nos Elencos sofísticos, confrontando-as com o que transparece dos escritos de Górgias, sobretudo o Elogio de Helena. O ponto de partida é um rol de procedimentos da linguagem – isto é, da léxis e não do logos – que, tanto na Poética como nos Elencos, Aristóteles identifica como sendo distin- tos dos da dialética. Nas duas obras, a lista de procedimentos é idêntica, mas, em um caso (na Poética), eles são legitimados em termos da propriedade elocutiva da poesia e, no outro (nos Elencos), são rejeitados como fazendo parte das falácias sofísticas. PALAVRAS-CHAVE: sofística; retórica; dialética; poética. Conhecemos há muito a célebre sentença de Aristóteles, segundo a qual a poesia está próxima da filosofia por se referir ao universal, entendendo ele por “referir- se ao universal” a atribuição, a um particular, de ações e pensamentos que, por neces- sidade e verossimilhança, pertencem à sua natureza (Poética, IX, 1451b 3-8). Nesse logos ou razão poética, a constituição da verossimilhança dá-se pela coerência interna de suas partes, de modo que a unidade da obra poética corresponda a uma unidade de sentido, que, não sendo verdadeira, é verossímil, ou semelhante à verdade. O termo que Aristóteles utiliza para designar esse verossímil assim pensado é eikos: semelhança, aparência. Na poesia, eikos e logos se equivalem. Isso também ocorre na dialética, embora por razões diversas. Na dialética, a unidade e, portanto, a universalidade, está na adequação entre a linguagem, que ex- pressa o pensamento, e as coisas, sendo o problema aristotélico constituir tal adequa- ção, em termos tanto dos nomes, como das proposições e dos enunciados ou discursos. Em todos os seus tratados – no Da interpretação, nos Segundos Analíticos, nos Tópicos, na Metafísica – Aristóteles se nos depara com a questão: como saber, pelas palavras, se