Existe uma régua para a democracia? Delmo de Oliveira Arguelhes Os eventos e práticas cotidianas assentam marcas indeléveis na linguagem. Até o princípio do século XX era corrente conceber a linguagem como um espelho da realidade. Seria simplesmente algo que descrevia o mundo cognoscível. A partir da virada linguística, com Ferdinand de Saussure na França e Charles Sanders Peirce nos Estados Unidos – trabalhando em paralelo –, significantes e significados ganharam concepções e dinâmicas próprias. A linguagem passou a ser imaginada como construtora da realidade, ao invés de um mero reflexo. Tal inflexão tornou possível a Begriffsgeschichte (História conceitual), ramificação investigativa oriunda da historiografia germânica, a qual se debruça sobre as variações semânticas dos conceitos nos eixos sincrônico e diacrônico da experiência humana. Um erro recorrente do senso comum acerca dos conceitos é tomá-los como monolíticos e exatos, independente dos contextos. Um conceito está sempre inserido no contexto espaço/temporal/semântico onde é pronunciado, por um lado. Por outro, o indivíduo, capaz de utilizar a linguagem criativamente, seja intencionalmente, seja por ato falho, pode conferir novos sentidos hermenêuticos ao conceito. A dinâmica da condição humana estabelece, portanto, uma via de mão dupla entre a realidade e a linguagem. A linguagem constrói a realidade num sentido, ao mesmo tempo em que é reinventada cotidianamente pelas práticas e pensamentos humanos. Acrescente-se a isso a recepção do público leitor ou ouvinte. A recepção também é um ato de construção de sentidos do discurso. E é um ato subversivo por excelência. O conceito ‘democracia’ é um excelente exemplo de nossa argumentação. Cunhado pelos antigos helênicos, democracia era o termo utilizado pelos críticos com o intuito de denunciar a isonomia (igualdade de regras) como um sistema falho e perigoso. Nesse sentido, democracia era algo negativo, remetendo à falta de organização, como se a sociedade que a instaurasse rumasse inexoravelmente à destruição. Os críticos usavam democracia como sinônimo de oclocracia, o governo da turba, acéfala e egoísta. Apenas no século XIX democracia passou a ser utilizada majoritariamente no sentido positivo. A isonomia grega era notável por ser um