189 Comunicação e Sociedade, vol. 12, 2007, pp. 189-200 O que pedem as palavras? Anabela Gradim * Resumo «O que pedem as palavras» reflecte sobre a relação entre imagens e palavras, não sob o ponto de vista do seu antagonismo, mas no modo como ambas se requerem e ilu- minam mutuamente. Até à invenção dos mass media, o Ocidente viveu imerso numa cultura logocêntrica, por via tanto da tradição grega como da judaico-cristã. Esse logocentrismo erigiu-se em torno da cisão aparência/realidade, ilusório/verdadeiro, patente no pensamento ocidental de Parménides a Heidegger, e que só o pragmatismo, em finais do século XIX, tentaria dissolver. A reconciliação que aqui se explora abor- dará sobretudo dois aspectos: que imagens sem palavras são mudas, e que a palavra – por via da metáfora e do índice – não dispensa a imagem que a ilumine. Palavras-chave: imagem, palavra, logocentrismo, idolatria, signo, metáfora, índice Vi claramente visto o lume vivo Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto V Imagem dispensa palavra? A percepção e a visão, dar a ver e ser visto, eídolon e aisthesis, sempre foram questões relacionadas com a imagem – do reflexo atomista à species medieval. A razão pela qual dizemos viver hoje, mais do que nunca, numa civilização da imagem, imersos nestas e, de certo modo, submetidos ao seu poder, é que nunca como agora tantos dos estímulos visuais que nos submergem – constantemente reclamando, e cada vez mais alto, atenção – foram artefactos, criaturas do homem. * Universidade da Beira Interior. anabelagradim@sapo.pt