9 o Ciclo de Debates sobre Jornalismo UniBrasil –28 de outubro a 01 de novembro/2013 A construção da narrativa das câmeras de segurança: proposta de análise a partir do conceito da multimodalidade Maura Oliveira Martins 1 Resumo Propõe-se aqui a análise da reportagem “Bebê abandonado em Praia Grande”, veiculada durante o Jornal Nacional, na qual se observa uma narrativa telejornalística construída pelo aproveitamento do material provindo das câmeras de segurança. Pretende-se, de tal forma, investigar sobre as estratégias narrativas utilizadas pelos veículos – a partir de um corpus representativo – para adequação do conteúdo oriundo das novas tecnologias do registro do real às agendas midiáticas. Para tanto, emprega- se o conceito de multimodalidade, que propõe o alargamento do conceito de texto de modo a analisar o engendramento dos diversos elementos narrativos – tal como as elipses, a tensão entre o verbal, o imagético e o silêncio – na construção das reportagens. Palavras-chave Jornalismo televisivo; câmeras de segurança; multimodalidade. O presente artigo propõe uma análise sobre a narrativa produzida pelo jornalismo a partir do aproveitamento das câmeras oniscientes 2 , material à disposição dos veículos midiáticos e provindo de instâncias exteriores às empresas jornalísticas. Trata-se do conteúdo disponibilizado pelas câmeras de segurança, que capturam imagens carregadas de uma expectativa de genuinidade, visto disponibilizarem o registro de um real que, a princípio, revela algo ocorrido para além de uma representação performática do eu (Goffman, 2004) – ou seja, prometem ao espectador algo provindo da esfera dos bastidores, normalmente não abordado pela instância jornalística. 1 Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (PPGCOM- USP). Professora-pesquisadora e coordenadora do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil). Contato: mauramartins@gmail.com . Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/022785003864881 2 Refere-se aos dispositivos de registro do real de fácil acesso e manejo dos cidadãos e que, portanto, potencializam a ubiquidade dessas câmeras por todas as instâncias da vida social. Propõe-se aqui, em virtude de um enfoque mais preciso para a análise, a separação das câmeras onipresentes (as gravações feitas pelas pessoas comuns e utilizadas pelas mídias) e as câmeras oniscientes (material capturado pelas câmeras de vigilância e incorporadas nas narrativas jornalísticas com a promessa de captura de um real ocorrido sem qualquer ciência dos participantes da cena) (Martins, 2012).