VERDADE DO CHEIRO E DO SOM: VERSÕES DA HISTÓRIA EM A COSTA DOS MURMÚRIOS (1988), DE LÍDIA JORGE, SOB A ÓTICA DA NARRATIVA MOLDURA 1 Elisangela Aneli Ramos de Freitas 2 e Marlise Vaz Bridi 3 A obra A costa dos murmúrios (1988), de Lídia Jorge, faz parte de uma geração de romances escritos após a Revolução dos Cravos, em 1974, que tateiam ou tentam reencontrar o lugar do povo lusitano após cinco décadas sob o jugo da ditadura salazarista e após a perda de suas províncias ultramarinas 4 . Como lembra DAVID (2010), Lídia Jorge apresenta nesta obra um desenho dos bastidores da Guerra Colonial, que se estendeu durante toda a década de 60 e que terminou com a Revolução dos Cravos em 1974 e a consequente independência das colônias, em 1975 5 . Para FORNOS (2009), “os romances de Lídia Jorge são manifestações simbólicas e alegóricas de um Portugal em transformação.” O romance inicia-se com uma parte intitulada “Os gafanhotos”. Seu título é posto em uma folha de rosto, recebendo um estatuto direcionado ao título de um livro. Esta circunstância é reforçada porque esta primeira parte se encerra com a palavra FIM, escrita em letras capitais, em contraste à segunda parte do livro, que tem nove capítulos numerados por letras romanas sequenciais e que não se encerram com nenhum sinal visível, como a primeira parte. Formalmente, é estabelecido que a primeira parte do livro é separada da segunda parte, como uma narrativa descolada da mesma. Assim, “Os gafanhotos” é o relato cronológico de uma festa de casamento realizada num final de semana, no terraço do Hotel Stella Maris, em Beira, Moçambique. Conta-se a 1 Pesquisa de iniciação científica desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da 2 Graduanda do curso de letras da FFLCH/USP. 3 Professora doutora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH/USP. 4 Dunder, M. Tese de doutorado, 2013, p. 5 David, D. L. Tese de doutorado, 2009, p.16.