QUANDO A ARTE E A LOUCURA SE ENCONTRAM 1 Laylla Zanin Baumgarten * Patrícia Fabiana da Silva ** Marta Dantas *** RESUMO: O presente estudo trata da relação entre arte e loucura e tem por objetivo refletir sobre como e por que surgiu o debate acerca desta relação e o interesse de artistas e pensadores do início do século XX pela produção artística de pessoas tidas como “doentes mentais”. Através de um breve histórico mostramos como a loucura foi transformada em doença mental, em objeto de estudo da psiquiatria e em fonte de estudo e renovação estética das vanguardas e do modernismo brasileiro. Enfatizamos como o debate sobre arte e loucura ocorreu simultaneamente no Brasil e na Europa e priorizamos as contribuições de Osório Cesar e Flávio de Carvalho neste debate e na divulgação e legitimação da criação artística dos “doentes mentais”. O texto também aborda os principais períodos de efervescência do debate sobre arte e loucura, ao longo dos anos 20 a 40, e destaca a contribuição de pensadores como Jean Dubuffet, criador da noção de arte bruta. PALAVRAS-CHAVE: Arte; Loucura; Modernismo Brasileiro; Vanguardas. WHEN ART AND MADNESS FIND IT OTHER ABSTRACT: The present study treats the relation between art and madness and has the objective to reflect how and why the debate around this discussion was brought up and the interest of artists and researchers from the beginning of the XX century for the artistic production of people as “mentally ill”. Through a brief historic that shows as madness was transformed in mentally ill people, as object of study in psychiatry as a source of renewal and study of vanguards aesthetics of Brazilian modernism. It is emphasized how the debate on art and madness took place simultaneously in Brazil and Europe and prioritized the contributions of Osório and Flávio Cesar de Carvalho in this debate and the dissemination and legitimization of the artistic creation of “mentally illness”. The text also addresses the major periods of ferment of the debates about art and madness, over the 20’s to 40’s, and highlights the contributions of the researchers such as Jean Dubuffet, creator of the concept of brutal art. KEYWORDS: Madness, Art, Brazilian modernism, Vanguards. Iniciação Científica CESUMAR Jul./Dez. 2008, v. 10, n.02, p. 111-117 * Discente do curso de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina – UEL; Bolsista do PROIC/UEL. E-mail: layllazanin@hotmail.com ** Discente do curso de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina – UEL; Bolsista do PROIC/UEL. E-mail: paty_faby_arty@hotmail.com *** Docente Doutora de História e Teorias da Arte do Departamento de Arte Visual e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina - UEL. E-mail: marta_dantas@hotmail.com INTRODUÇÃO No início do século XX a Europa era marcada pela tentativa de renovação da arte e da cultura ocidental. Ao buscar uma nova forma de criar, artistas e pensadores da época tentaram fugir aos moldes acadêmicos e começaram a se interessar por obras tidas como “primitivas” e pela produção de pessoas consideradas “doentes mentais” ou à margem da sociedade. Nesta mesma época, o Brasil, que também se encontrava em um período de inquietação e de renovação da arte, tentava se livrar dos moldes europeus e buscava valorizar os traços característicos de sua própria cultura. Ao contestar os parâmetros e regras impostos pela sociedade e pela tradição cultural, o meio artístico - tanto o europeu quanto o brasileiro - passou a valorizar o simples e o primitivo, bem como tudo aquilo que fugisse dos moldes acadêmicos. Desta forma, artistas, críticos e escritores passaram a utilizar o termo “primitivo” como um adjetivo positivo, para se referir à pureza, à sinceridade e à originalidade das manifestações de povos tidos como “atrasados”. O termo “primitivismo” passou, então, a 1 Este artigo é resultado de um subprojeto de Iniciação Científica, “O Modernismo Brasileiro em Busca do Marco Zero da Arte”, orientado pela Docente Dra. Marta Dantas e vinculado ao projeto “Infames, casos de singularidade histórica”. Através de pesquisa bibliográfica, pretende-se contextualizar o debate sobre a relação entre arte e loucura, o processo de valorização e legitimação da expressão criadora dos “doentes mentais”, suas implicações e o discurso de seus primeiros defensores no Brasil.