4. Das diferenças às desigualdades: discriminação e preconceito Jaqueline Lima Santos Márcio acordava cedo todos os dias para ir à escola Todos os dias a mesma rotina Vestir a camisa muito branca e bem passada pela família Estar impecável era uma forma de amenizar estigmas O pesadelo começava logo cedo, depois de acordar Quando o menino entrava na fila, escutava: MACACO! O som muitas vezes vinha da voz de Maria, que despertava risos Não somente pel.o fato de chamar Márcio de macaco Mas pelo seu sotaque nordestino Maria ria do cabelo de Awa, aluna que emigrou de Guiné-Bissau Awa se recusava a brincar com Antônio porque ele tinha dois pais Antônio, embora triste, encontrava conforto na perseguição de José A quem chamavam de “macumbeiro” Mas o intocável era Pedro Pele branca, olhos claros, família tradicional, cristão e sudestino A ele foi dado o direito de rir de todos, sem se sentir abalado No dia que a professora iniciou um projeto de intervenção, muitos passa- ram a sorrir Emerge a compreensão de que cada diferença tem histórias São valorosas, estão em todos os lugares Um dia a professora foi surpreendida Foi denunciada pela família de Pedro Seu crime? Ter feito Pedro se sentir diferente Mal entendiam que a diferença não é o problema, está contida em todos nós Mas, para a família, a universalidade de Pedro era inabalável A professora ficou limitada, ao ponto de poder perder o emprego Um dia, no intervalo, todos gritaram para o Márcio: Macaco! Cansado, Márcio reagiu Ele bateu em três colegas Como resultado, foi expulso da escola A professora não aguentou, pediu exoneração. 126