JANE PAIVA PRIMEIRAS EVOCAÇÕES: ESPAÇOTEMPO DA MEMÓRIA evo iniciar, ao escrever este texto, pelos sentidos que a memória tem assumido na minha trajetória de investigadora. A memória, como a compreendo, é construída por um processo ativo de criação de significados que ganham novos sentidos a cada narração. Na qualidade de fonte oral, indico que a memória possui um elemento que nenhuma outra fonte tem da mesma forma: a subjetividade do expositor que conta não apenas o que fez, mas o que pretendia fazer, acreditava estar fazendo e que pensa ter feito. Pode, portanto, revelar muito dos custos psicológicos de determinados eventos sobre os envolvidos, direta ou indiretamente. Esse caráter subjetivo das narrativas não pode ser camuflado pelos discursos de objetividade/neutralidade, pelo contrário, essa especificidade é encarada como riqueza de possibilidades que este tipo de fonte traz para a tentativa de reconstrução de um espaçotempo humanizado, mais próximo da realidade. Pelas narrativas, a realidade irrepetível que constituiu a vida social emerge, marcada por novas subjetividades e apropriações singulares do vivido, impossível de ser conhecida apenas pela descrição de fatores políticos e econômicos. Enlaçam-se a eles aspectos culturais e sociais, de participação e implicação sobre cada indivíduo e é apreendida pelos sujeitos de acordo com a posição que ocupam no estrato social. Parcialmente apoiada em fontes orais, alerta-se que a memória é sempre ARTIGO uma reconstrução (LANG, 1996, p. 35): evocação ...] de um passado visto pela perspectiva do presente e marcado pelo social, presente a questão da memória individual e da memória . Portanto, a evocação que o evento Jornada Glória Pondé me causou, levando-me até a escrita desse artigo, não o faz apenas como ...] um recolhedor de memórias ou de performances verbais, mas sobretudo como um provocador dessas memórias e performances, que contribui para elas por meio de sua presença, das suas perguntas, das como ensinou Portelli (2010, p. 20). Com esse fundamento dispus-me a rememorar Glória Pondé, que em um espaçotempo definido, esteve fortemente imbricada à minha vida. A memória faz-me retornar ao passado, sob a perspectiva do presente, e trazer à tona nosso (re)encontro na literatura e no projeto do Centro de Leitura e Escrita do Programa de Alfabetização e Leitura (PROALE), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em tempos de celebração dos 50 anos da Pedagogia dodo Oprimido, de Paulo Freire, cabe trazê-lo também a esta interlocução, pelo seu sempre inesquecível dizer de que ...] a leitura do mundo precede a leitura da . Se eu o evoco, é porque vejo Glória como alguém para quem a significação da leitura e da escrita como textos que produzem jamais se fez descolada dos contextos em que são produzidos esses, conformando o mundo o qual Paulo Freire lembra que não se dá a leitura da palavra. Esse mundo que ética e esteticamente nomeamos, que só existe pela forma como nós o apreendemos, tornando-se, assim, um mundo, o nosso mundo, absolutamente singular e único, como Fritjof Capra (2000) ensina, ao assumir a física quântica como fundamento da compreensão da vida e dos fenômenos que ela produz. Desse jeitinho, Glória Pondé se uniu à leitura e à escrita, penso, nas evidências que fui podendo perceber em nosso convívio. De- Memórias Acionadas: Espaçotempo para Glória Pondé D 11