REVISTA PORTUGUESA CIÊNCIAS VETERINÁRIAS DE O vírus West Nile em Portugal – estudos de vigilância epidemiológica West Nile virus in Portugal – epidemiological surveys Perpétua Formosinho* 1 , Maria Margarida Santos-Silva 1 , Ana Santos 1 , Pedro Melo 2 , Vítor Encarnação 3 , Nuno Santos 3 , Telmo Nunes 4 , Ricardo Agrícola 5 , Maria Portas 5 1 Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas (CEVDI), Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), Águas de Moura, Portugal 2 Parque Florestal Monsanto, Câmara Municipal de Lisboa, Portugal 3 Instituto da Conservação da Natureza (ICN), Lisboa, Portugal 4 Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal - Faculdade de Medicina Veterinária (CIISA-FMV-TULisbon), Lisboa, Portugal 5 Serviço Nacional Coudélico (SNC), Santarém /Lisboa, Portugal Resumo: Entre 1999 e 2002 foram colhidas amostras de sangue em populações de aves e equinos, em Portugal Continental, tendo sido também capturados ixodídeos nos mesmos hospedeiros e na vegetação, com vista a detectar a actividade do vírus West Nile (WN). Para a detecção de anticorpos específicos contra o vírus WN recorreu-se às técnicas de Inibição de Hemaglutinação (IH) e Imunofluorescência Indirecta (IFI). Para confirmação dos soros positivos foram utilizadas as técnicas de ELISA e Neutralização. A detecção de RNA viral em ixodídeos, foi realizada pela técnica de RT-PCR, tendo sido também realizados ensaios de isolamento em animais e em células. Das 134 aves analisadas, 11,9% apresentaram anticorpos anti-WN. A serologia efectuada em 91 amostras de soros de cavalos, demonstraram três reacções positivas para o vírus West Nile, tendo sido registada uma prevalência de 3,3%. Nos 2153 ixodídeos analisados não foi possível assinalar a presença de arbovírus. Os resultados nos hospedeiros sentinelas, não foram confirmados nas provas de neutralização, pelo que há a considerar a possibilidade de existir em circulação outro vírus pertencente ao género Flavivirus, tendo aves e equinos como hospedeiros no seu ciclo de transmissão. O conjunto de dados epidemiológicos obtidos durante este trabalho alerta para a ocorrência de Flavivírus em Portugal. Palavras-chave: Arbovírus, Flavivírus, vírus West Nile, vigilância epidemiológica. Summary: From 1999 to 2002 blood samples were collected from birds and horses, ticks were also collected from the same hosts and from vegetation to detected the activity of West Nile (WN) virus. Blood samples were tested by Hemagglutination Inhibition (HI) and Immunofluorescence assay (IFA). ELISA and Neutralization techniques were used for the confirmation of host positive sera. For virus activity detection ticks were screened by RT-PCR and isolation attempts were made in animals and cells. Of 134 birds analyzed by HI, a seropreva- lence of 11.9% were observed. Serologic studies by IFA per- formed on 91 horses serum samples had reveled three positives reactions to WN virus, confirmed by ELISA for IgG antibodies with a seroprevalence of 3.3%. From 2153 ticks studied no arbovirus were detected. Due to the negative results by Neutralization Tests in sentinels hosts we can infer the possibility of circulation of another virus belonging to Flavivirus genus, where birds and horses are involved in their transmission cycles. The epidemiological data obtained during this study alert for the occurrence of Flavivirus in Portugal. Keywords: Arboviruses, Flaviviruses, West Nile virus, Epide- miological surveys. Introdução Os vírus transmitidos por artrópodes, designados arbovírus são a causa de doenças infecciosas emer- gentes que afectam o Homem e os animais domésticos, consideradas um problema de Saúde Pública actual. Estes vírus são transmitidos entre hospedeiros verte- brados susceptíveis por intermédio de artrópodes vec- tores competentes. Os principais vectores das arbovi- roses são os mosquitos, as carraças, os flébotomos e os culicoides; sendo as aves e os roedores, os hospedeiros reservatórios vertebrados mais importantes. Nos hos- pedeiros tangenciais, como o Homem e os animais domésticos, estes vírus causam infecções podendo resultar em casos de doença com morbilidade e mor- talidade significativa (Woodring et al., 1996). Os arbovírus pertencentes à família Flaviviridae, aparentam ser os que têm maiores potencialidades epidemiológicas em Portugal, quer pelos resultados obtidos dos estudos já efectuados (Filipe, 1971a; 1971b; 1973; 1974; 1983; Filipe et al., 1973; Formo- sinho et al., 2002; Connel et al., 2004; Formosinho, 2004) quer pela reemergência nos últimos anos de alguns destes vírus em várias regiões de clima temperado característico do nosso País. O vírus West Nile (género Flavivirus) é um dos últimos exemplos de introdução de vírus exóticos em novas áreas, onde existem hos- pedeiros e artrópodes vectores susceptíveis. Este vírus foi isolado pela primeira vez no Uganda (Smithburn et al., 1940). Na Europa é descrito desde os anos 60, sendo considerado a causa de arboviroses re-emergentes desde RPCV (2006) 101 (557-558) 61-68 61 *Correspondência: pmnpformosinho@yahoo.com.br