Gênero e guerra: uma etnografia com grupos de WhatsApp conservadores que atuam no Brasil Aknaton Toczek Souza Pablo Ornelas Rosa RESUMO O artigo apresentado propõe uma análise acerca dos discursos sobre gênero e sexualidade produzidos no processo de hipermilitarização brasileira. Decorre de uma investigação conduzida pelo método etnográfico que envolveu grupos de Whatsapp auto identificados como conservadores e cristãos que apoiam diretamente o presidente Jair Bolsonaro. Em um primeiro momento, será analisado o papel dos estudos de gênero e sexualidade no processo de militarização e em seu recrudescimento decorrente da razão neoliberal. Na sequência, será apresentada uma investigação sobre as eleições de 2018 e o governo de Jair Bolsonaro, verificando como que a instrumentalização e propagação da noção de guerra cultural passaram a ser utilizadas com o intuito de conferir certa legitimidade em suas ações cada vez mais veementes em relação aos seus adversários políticos. E por fim, através dos dados etnográficos e documentais, será averiguado como que os estudos de gênero e sexualidade passaram a ser mobilizado nessa guerra, servindo de justificativa moral para fins políticos e econômicos. Palavras-chave: Plataformas digitais; gênero; sexualidade; guerra; representações sociais. 1- Aqui somos todos conservadores” – Entrada no campo Ao iniciar a apresentação deste artigo, se faz necessário destacar a complexidade dos fenômenos que atuam de forma interdependente e marcados por certa interseccionalidade de estruturas simbólicas operadas a partir da relação entre gênero e guerra. Nesse sentido, o título dessa introdução é um exemplo bastante significativo sobre esse aspecto, já que a frase “Aqui somos todos conservadores” é usualmente proferida por integrantes dos grupos etnografados que, a qualquer sinal de comportamento que possa revelar certa divergência em relação às suas concepções de mundo, reiteram sua identidade como conservadora e cristã, utilizada tanto para se defender quanto para intimidar e acusar seus adversários políticos, que passam a serem tratados como inimigos. Os grupos de Whatsapp investigados, que se associam tanto ao bolsonarismo quanto ao conservadorismo, possuem uma forma limitada de interação, porém, ainda assim complexa. Nesse sentido, utilizam-se de mensagens de texto em uma dinâmica de