118 SOBRE OS SONHOS E O SURREALISMO: THEODOR ADORNO E ANDRÉ BRETON JORGE DE ALMEIDA Universidade de São Paulo Resumo O ensaio investiga os pressupostos filosóficos e críticos de dois modos de conceber a representação literária dos sonhos, contrapondo as obras de André Breton ao livro de protocolos oníricos de Adorno, com o objetivo de refletir sobre o sentido do surrealismo e as relações entre arte, sociedade e psicanálise. Palavras-chave Theodor Adorno; André Breton; surrealismo; sonhos; Sigmund Freud. Abstract With the aim of reflecting about the meaning of surrealism and the relations between art, society, and psychoanalysis, this essay investigates the philosophical and critical tenets of two modes of conceiving the literary representation of dreams, by comparing André Breton’s works to Adorno’s book of dream notes (Traumprotokolle). Keywords Theodor Adorno; André Breton; Surrealism; dreams; Sigmund Freud. Bons leitores de Hegel, tanto André Breton quanto Theodor Adorno reconheciam, cada um a seu modo, que a dialética exige a visada retrospectiva, na qual as contradições do passado, só perceptíveis sob a luz incerta do crepúsculo, poderiam ser revistas a partir de uma distância histórica supostamente mais justa, ainda que por vezes cruel. Entretanto, foi o próprio Breton, ao discutir a nova posição política do surrealismo em 1935, quem invocou Hegel (não tanto como filósofo sistemático oficial, o que também era, mas como autor de uma Estética que concebia a arte como um modo específico de conhecimento, para além da autoconsciência do sujeito racional) e o entronizou sem ironia como possível juiz antecipado do movimento: “Declaro que, ainda hoje, é a Hegel que se há de interrogar sobre os bons e os maus fundamentos da atividade surrealista nas artes. Somente ele poderá dizer se esta atividade estava predeterminada no tempo, somente ele poderá ensinar-nos se a sua duração futura tem a possibilidade de vir a ser contada em dias ou em séculos”. 241 Nem tanto, nem tão pouco; o necessário envelhecimento (assumido pelo próprio Breton em seus textos finais) acabou sendo antecipado pelo horror da Segunda Guerra Mundial, perante a qual os choques surrealistas dificilmente podiam defender seu aspecto lúdico e infantil, que nos anos 1920 ainda era motivo de orgulho. É a partir dessa perspectiva sombria que Adorno revê o surrealismo, em um importante ensaio de 1956, recolhido no primeiro volume das Notas de literatura. 242 O olhar retrospectivo do crítico não esconde uma certa nostalgia, pois o texto 241 André Breton, “Position politique du Surréalisme”, in Oeuvres complètes II, Paris, Gallimard, 1992, p. 476. Edição brasileira em André Breton, Manifestos do surrealismo, trad. Sergio Pachá, Rio de Janeiro, NAU, 2001, p. 310. 242 Theodor W. Adorno, “Revendo o surrealismo”, in Notas de literatura I, trad. Jorge de Almeida, São Paulo, Editora 34, 2003, p.135-140.